Uma manhã de domingo

12/02/2012 06:01:00 AM


            Era uma manhã de domingo, não como outra qualquer. Aquela fora uma manhã especial. O dia amanhecera nublado, com nuvens escuras que pareciam dançar no céu. O sol se escondera temporariamente durante aquele dia e assim, me fez sentir uma certa tristeza que assolava minha alma.
            Decidi caminhar e deixar me perder em pensamentos que surgiam atropelando uns aos outros ou lutando para ver qual deles adquiria o controle sobre mim. Não era preciso tamanho esforço para revelar qual pensamento oculto nas sombras de minha mente, desejava me possuir, torna–me escrava de seus desejos pretensiosos, egoístas e cruéis, ferir–me a alma como fogo eterno de loucura, prazer e sofrimento.
            Conforme eu caminhava, com passos curtos e lentos, mais eu era assombrada por essas lembranças que me envolviam como se quisesse ao mesmo tempo me proteger ou me sufocar até eu perder a última respiração na tentativa de sobreviver aos seus encantos. 
            E entres devaneios de realidade por mim já esquecidas, mas que relutavam em me dizer que ainda estavam mais vivas do que nunca, senti uma grande onda dolorosa tomar conta de mim. Fui arremessada a não sei quantos metros de distância. Algo pesado se chocara ao meu corpo. Pude sentir o ar frio brincar comigo, tocando cada parte descoberta e agora ferida de meu corpo. Uma vontade de vomitar minha vida se sucedeu, enquanto cada parte de meu corpo tremia, devido ao choque com o chão.
            Entre suspiros e sussurros de vozes inaudíveis ao meu redor, eu tentava abrir os olhos e deixar de lado os fantasmas agonizantes dos pensamentos que causara tudo isso, eis que surge na minha frente a imagem de um ser, até então um feixe de luz disforme, mas que com o tempo, ganha uma forma humanizada... uma forma que mescla um humano e um ser divino... um anjo? Seus olhos fixaram nos meus, que ainda lutavam para permanecer abertos por mais um instante.    Eu estava estirada numa rua qualquer, sendo observada por aqueles olhos curiosos de corvos, que pareciam se deliciar com minha agonia. O carro no qual eu havia chocado, já desaparecera daquele lugar e apenas deixara de recordação (além das marcas, dores, cortes, fraturas em mim) marcas asfálticas de seus pneus no chão daquela rua. 
            Voltei meu olhar para aquele a quem denominei de anjo. Sua cara era um mister de ternura, tristeza e dor. Senti o seu toque queimante no meu pulso. Gemi. Meu corpo todo doía de uma forma aterrorizante. Fechei meus olhos na tentativa de escapar daquela realidade e fui tragada pela última vez aos mesmos pensamentos, sendo vencida pelo cansaço dessa vida. Cansei de lutar por algo que nunca chegará a ser concreto. Cansei de sonhar com algo impossível, de viver só de fantasias, de viver com esperanças.
            Quero ser levada por aquele anjo, que provavelmente continua a me olhar. Posso sentir uma onda emanando dele e vindo em minha direção, uma onda que reconforta o meu espírito. E eu estava certa. Senti o seu abraço reconfortante. Quando menos percebi, estava sendo levada as alturas... Eu podia tocar com minha mãos cada nuvem no céu, deixar transparecer em minha face um sorriso que há muito tempo eu não via surgir.
            Olhei para o anjo e antes que eu pudesse reagir, seus lábios docilmente beijaram os meus. Despertei desse sonho na cama de um hospital. Uma onda de solidão, raiva, saudade, emanaram de mim.  Estava de volta a vida real.

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