Como resgatar a valorização da Cultura Popular

5/13/2015 07:30:00 AM


Raquel Alves
Resultado de imagem para cultura popular

            Partindo de um pressuposto conceitual ligado ao campo da Antropologia (ciência que estuda o homem), a cultura pode ser compreendida sob as ressignificações e combinações tradicionais oriundas de um dado espaço geográfico, histórico e social, que reflete na maneira de ser, no comportamento e no pensamento humano e de sua respectiva comunidade/sociedade.
            Sendo assim, o antropólogo brasileiro Roque de Barros Laraia, autor do livro “Cultura: Um conceito antropológico” expõe os estudo de Alfred Kroeber, antropólogo americano, no qual dá-se ênfase que “a cultura é um processo acumulativo, resultante de toda experiência histórica das gerações anteriores”. A história que regeu ou rege a vida de cada povo é um fator determinante de sua cultura, e é a partir dela que se traça os elementos pertencentes a essa cultura, segundo os estudiosos do Particularismo Histórico.

            Para Roy Wagner, autor do livro “A invenção da cultura”, o nascimento da cultura ocorre por meio “das culturas que criamos com o uso desse conceito, e uma imposição de nossas próprias preconcepções a outros povos”. O que o autor quis dizer é que a cultura se inventa, se transforma, sobrevive no fazer híbrido que se adquire ao longo do tempo, como forma de resistência ou de modo de perpetuação dessas tradições culturais resultantes da assimilação final deste processo.
            A partir dessas definições de cultura, pode-se mergulhar no antagonismo entre as discussões sobre as produções da Cultura Pop versus Cultura Popular, que implica na exaltação de uma e na subjugação da outra.
A Cultura Pop surgiu entre as décadas de 1950/1960 por meio da popularização dos meios midiáticos/comunicativos, como o “rádio, TV, cinema, literatura, música” e consequentemente seus reflexos foram notáveis no “ditar” modos de comportamento e na forma como a Indústria Cultural (termo criado por Theodor Adorno e Max Horkheimer no século 20, para explicar “as condições da produção artística na sociedade capitalista contemporânea”) detinha o poder de transformar os ideais de uma dada manifestação cultural em um produto a ser consumido pela massa/povo, que já é previamente induzido a adquirir/consumir esse produto pré-concebido pela Indústria Cultural.
            Um desses exemplos foi o movimento rock and roll surgido por volta de 1950 e seus ídolos, dentre eles, Elvis Presley. O ideal do movimento, o modo de vida, a filosofia, a produção da identidade de seus membros (a música, a rebeldia, etc) influenciaram os jovens que procurava “seguir seus ídolos”. Outro exemplo desse poder da Indústria Cultural que rege a Cultura Pop está na década de 1980, com nascer dos ícones Michael Jackson e Madonna.
            E no Brasil? Por volta de 1960/1970, os movimentos que se espelhavam nos moldes europeus e americanos foram a Jovem Guarda e o Tropicalismo. A MPB, em seguida, (1980) encontrou espaço nos “programas de auditório e telenovelas”. Com a década de 90, veio o estouro do CD e da internet em todo o mundo, e o poder da Indústria Cultural só aumentava com tal evento.
            Já a Cultura Popular pode ser definida como aquela referente à oralidade do povo, associada à tradição e a memória coletiva. Segundo as pesquisadoras Cássia Lobão Assis e Cristiane Maria Nepomuceno, em seu artigo “Cultura Popular: O ser, o saber e o fazer do povo”, a forma contemporânea assumida pela cultura popular está ligada a “dimensão nova e multifacetada, definidora da identidade nacional, fonte de renda e atração turística”.
            Mesmo se apresentando como um reflexo “resistente e conservadora” daquilo que é nacional/regional/local, o antropólogo e historiador brasileiro Luis da Câmara Cascudo, explica que não devemos ser ingênuos e pensar que a cultura não pode ser passível da mistura. É isso que garante a sua preservação diante da contemporaneidade: o caráter híbrido, dinâmico e o resultado do conflito das influências globais e locais dessa cultura.
            Respondendo ao título original desta reportagem “Como resgatar a valorização da cultura popular”, as pesquisadoras Cássia Lobão Assis e Cristiane Maria Nepomuceno refletem que a transformação do movimento cultural é oriundo da “inter-relação de forças internas da sociedade (...), como também do contato e do conflito com as forças externas”, na qual “mesclar é imprescindível” para garantir a sobrevivência dessa cultura.
            Assim como “usa-se sem obrigação a camisa de certos produtos da cultura pop”, deve-se também preservar a cultura local, a raiz, a tradição, pois assim é possível a continuidade do resgate da história referente ao lugar onde vive-se o indivíduo. Existem recursos tecnológicos e midiáticos para dar continuidade a cultura popular, para refazê-la e propagá-la sem medo de desvirginar ou de corromper essa cultura popular.
            Quando for deixado de lado essas rivalidades entre Cultura Pop e Cultura Popular, quando for deixado de lado a vergonha daquilo que você é e quando puder assumir com orgulho tudo aquilo que é inerente a suas práticas culturais, é que garantirá a sobrevivência diante das novas gerações que virão.
Valorize, pois, as diversas influências religiosas, as romarias, seus personagens, as rezadoras, as danças, os ditos populares, as lendas urbanas, a música, o artesanato, as brincadeiras, as comidas típicas, a literatura, etc, pois cada uma delas, em suas particularidades, são memórias do povo que reflete sua vida, sua história, que também não deixa de ser nossa! 

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários