Resenha do livro Justine de Marques de Sade

6/24/2015 07:22:00 AM

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O livro Justine trata das dificuldades de duas irmãs desamparadas para sobreviver na sociedade francesa, na época da revolução: Justine e Juliette. A primeira sofrerá horrores para manter a sua virgindade, objeto de desejo de todos aqueles que se aproximam dela. A segunda, não importa com sua virtude quando a questão é a sobrevivência. É uma história que leva-nos a refletir sobre esses questionamentos e a maneira como é explorado o sadismo, em supostos membros sociais que deveriam ser exemplos para a sociedade, e chega a ser revoltante a forma como Sade (sádico de natureza) explora os tormentos que afligiram a vida de Justine. Mas no final do livro tem uma lição de moral, que me fez chorar!
Por Raquel Alves
Apresentando o autor:
Donatien Alphonses François de Sade ou mais conhecido no mundo literário como Marques de Sade nasceu em 1740 e era filho da dama de uma princesa chamada Marie Eléonore e o conde de Sade, o senhor Jean Baptiste-Joseph. Os estudos iniciais do jovem escritor envolveram o aprendizado do latim e grego em instituições jesuítas. No ano de 1755 se aventura ao ingressar na Cavalaria, sendo nomeado ou assumindo diversas patentes como subtenente e capitão. (JORGE, s/d).

Marques de Sade passou o equivalente a 30 anos de sua vida em celas de prisões francesas, em decorrência de dívidas, atos violentos sexuais (sádicos, masoquistas, flagelação), “festas de prazeres” (com sexo coletivo, diversos parceiros, e sodomia, que “no século XVIII a sodomia ativa ou passiva era passível de pena de morte” (JORGE, s/d, p. 06)), envenenamento (acusação feita por Marguerite Coste, uma frequentadora das festas sexuais de Sade), cárcere privado (de uma jovem pedinte chamada Rose Keller), “devassidão, blasfêmia, profanação da imagem de Cristo” (JORGE, s/d, p. 04), rapto, mas geralmente era libertado devido as suas influências e futuramente a posição social de sua esposa, que sempre procurava ajudar o marido em seus problemas.

Depois de sua primeira prisão em 1763, ao retornar a Paris, se apaixona por Colette e depois Beauvoisin, atrizes. Neste mesmo ano, casa-se com Rennée de Montrevil, e em 1767 nasce Louis-Marie, seu primeiro filho. Em 1769 nasce Donatien-Claude-Armand, e por fim em 1771, nasce sua filha Madeleine-Laure. Sade volta ao exército, se envolve em prisões, dentre elas a mais perigosa, que por intermédio de sua mulher, conseguiu fugir. Contudo, na última vez que fora preso, por sido acusado de raptar jovens, inclusive chegando a levar um tiro de raspão “do pai de uma cozinheira do castelo, Catherine Treillet, também chamada de Justine” (JORGE, s/d, p. 06), a senhora Montrevil, nora do Marques, decide de uma vez por todas manter o pervertido sádico e imoral detrás das grades por um bom período de tempo. Mais uma vez, Sade foge.

Contudo, preso, agora é transferido para a Bastilha. Em cada prisão que esteve, escreveu ou começou a rabiscar algumas de suas obras famosas. Em 1789 ocorre a Queda da Bastilha, local onde estava preso o Marques, (um dos eventos da Revolução Francesa). Em 1790 “é anulado as ordens de prisão e o marquês é liberto. Sua mulher está no convento de Sainte-Aure e recursar-se a vê-lo” (JORGE, s/d, p. 07). No mesmo ano, se envolve com uma comediante chamada Marie-Constance Renel. Em 1793, mesmo debilitado de saúde, é preso e adoece ainda mais, sendo liberto em seguida.

No período de 1801 a 1807, é novamente mantido “entre as jaulas prisionais”. O ano de 1810 marca a morte da esposa do marquês, que está no convento. Sade morre em 1814.

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Cronologicamente está organizado sua vida literária:
“1782- Começa a escrever: O pensamento inédito, O diálogo entre um[1] padre e um moribundo e 120 dias de Sodomia.

1783- O Precavido e o marido crédulo (comédia) e Jeanne Laisné (tragédia)

1786- Aline e Valcourt (começa a escrever quando é transferido para a Bastilha)

1787- Escreve a obra Justine em apenas 16 dias e publica em 1791.

1791- Apresenta no teatro um drama: Oxtiern ou As desgraças da libertinagem
1795- Publica A filosofia da alcova e Aline e Valcour. A história de Justine é republicada e a irmã da personagem, Juliette, ganha uma história também.

1801- Publica os Crimes de Amor e Uma ideia sobre os romances

1807- Escreve Os Dias de Florbelle ou a Natureza Desvendada (mas é destruído o manuscrito na prisão)

1812- Adelaide de Brunswick

1813- História secreta de Isabel da Baviere e publica A marquesa de Gange”






[1] (JORGE, s/d, p. 06-07)


Resumo da Obra:
        Juliette e Justine são duas jovem francesas desamparadas. O pai fugira para a Inglaterra e a mãe, morreu tempos depois, devido a enorme tristeza motivada pelo abandono do seu parceiro. O destino foi o mestre que criou as meninas. Com pouco dinheiro para se sustentarem, logo o convento lhes fecha as portas. Com 100 escudos (moeda), cada uma parte para caminhos separados.

“É porque só se gosta das pessoas por causa da ajuda ou dos agrados que se imagina que possa vir a receber” (Justine).

        Juliette conheceu uma senhora prostituta que lhe ensinou como usar seu corpo para obter dinheiro fácil e ofereceu uma oportunidade de sobreviver a vida. Logo, casou-se com o Conde de Lorsange e tratou de matá-lo para logo desfrutar de seu dinheiro. Cometeu três infanticídios ao longo da vida e outros crimes.

        Já Justine, preferindo viver honestamente sem vender sua virtude, resolve pedir ajuda a um padre, que tenta molestá-la.

“Quanto a desgraça que atormenta a virtude, o infeliz a quem a sorte persegue tem o consolo da sua consciência, e os prazeres secretos que colhe da sua pureza, logo o compensam da injustiça do homem” (Narrador).
        Logo a história nos leva para o futuro: uma jovem acusada de crimes como assassinato, roubo e incêndio, vive com o senhor de Conville e sua esposa. Na presença daqueles nobres cidadãos, a jovem que oculta seu nome, resolve conta-lhe suas desgraças, narrando pois, sua vida.

“Esta virtude da qual fazeis tanto luxo de falar não serviu para nada neste mundo e fareis bem em entregá-la a alguém quando não tiverdes sequer um copo d’água para beber” (senhor Dubourg).
      Mendigando pelos cantos, Justine é acolhida por um velho avarento chamando Du Harpin e sua amante. É encarregada de realizar os trabalhos domésticos.
“Já estava escrito na página dos meus destinos que cada uma das minhas ações honestas para onde meu caráter me levasse, deveria ser paga com uma desgraça” (Justine).

        O patrão logo manda prender Justine acusando-a de roubo, sendo que os verdadeiros culpados sãos os próprios patrões da jovem.

“Aqui, acredita-se que a virtude é incompatível com a miséria, e nos tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado” (Justine).
        Na prisão conhece uma ladra chamada Dubois que juntamente com seus comparsas, incendeia o local. Ela oferece ajuda a Justine, e quando a menina desconfia de Dubois, a mesma a obrigar a seguir em sua vida de crimes, a medida que pressiona os delinquentes de seu bando a estuprar Justine. Aproveitando-se de um briga para ver que primeiro estupra Justine, ela aproveita e foge.

        Justine presencia no bosque a relação sexual de dois homens: o jovem Adonis Bressac e seu criado Jasmin. O jovem, temendo que Justine contasse o que viu, a leva para casa antes de ameaçá-la casa se atreva a dizer a verdade. Justine confia na senhora Bressac, que promete ajudá-la em seus problemas judiciais (o roubo e incêndio na prisão). Levando uma vida como criada, Justine ousa sonhar com o amor: está apaixonada por Adonis. Contudo, o jovem planeja atentar contra a vida de sua mãe e pede que Justine o ajuda. A mesma concorda em ser sua cúmplice, com medo de suas ameaças, mas conta tudo a condessa que fica horrorizada com o que o filho planejava.


“Mas estava escrito no céu que esse crime abominável seria executado e que a virtude humilhada cederia aos esforços da perversidade” (Justine).




        Mesmo alertada da trama a condessa morre envenenada pelo filho e Justine é culpada por não ter participado do crime por Adonis. Ela a leva ao bosque e lá confessa que soubera que a jovem contou a condessa o seu plano, e a castiga fisicamente, dando chicotadas violentas. Quando percebe os suspiros fracos da jovem, diz que todos do castelo sabem que foi ela quem envenenara a condessa e aconselha que Justine fuja pois o seu processo criminal não fora nulo e sim acrescentado mais um crime: assassinato.

        Chegando em uma aldeia, bastante debilitada, um médico ajuda a curar suas feridas. Justine passou dois anos vivendo na casa do médico, até que um dia, escuta um choro de menina no porão, e suspeitando das maldades do doutor, liberta a garotinha. Sem tempo para fugir, é surpreendida pelo médico, que a tortura e marca suas costas a ferro. Depois, deixa Justine na floresta. Aos 22 anos de idade, Justine só viu um mundo injusto e cruel.

“Doce solidão (...) como tua morada me causa inveja” (Justine).
        Confiando na santidade de religiosos, ela se dirige ao Convento de Recoletos, onde é estuprada por quatro padres, perdendo pois sua virtude (sua virgindade), seu maior bem.

“Eu provei num tal grau de violência que as dores da dilaceração de minha virgindade foram as menores que tive que suportar naquele perigoso ataque” (Justine)
        Ali, a moça torna-se prisioneira das depravações dos religiosos (para mim, as depravações sexuais dos padres, tem muita intertextualidade com as do próprio marques de Sade).

“A religião é para mim o efeito do sentimento e tudo que a ofende ou ultraje faz sangrar meu coração” (Justine).
 
        Mesmo em tal provação, Justine sempre vale da religião como uma esperança diante da crueldade da vida e das pessoas que sempre utilizam-se da fraquezas de certas pessoas, para sua ascensão social ou sexual. Os anos passam e com a chegada de dois novos padres, as moças ou prisioneiras sexuais são libertas, sob a ameaça de um sigilo absoluto de tudo que lá viveram.
“E tu, desgraçada criatura, sofre sozinha, sofre sem te queixar, pois está escrito que as tribulações e os sofrimentos devem ser a  partilha terrível da virtude” (Justine).

        No caminho fora de Lyon, conhece Dalville que se encontrava muito machucado. Ela o ajuda e ele oferece um abrigo para a jovem. Dizendo morar com a esposa e que precisava de uma criada, seduz Justine rumo a mais uma prisão: um falsário, onde fora proposto “trabalhar em uma cisterna onde mais duas mulheres nuas e agrilhoadas, moviam a roda que despejava água num reservatório” (p. 91).

“A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas dos fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas” (Dalville).
        Como prova de sua superioridade, Dalville chicoteia Justine, sem motivo algum.

“Portanto, o homem é naturalmente mau, ele está no delírio das suas paixões quase sempre como na sua calma, e em todos os casos, os males do seu semelhante podem ser prazeres execráveis para ele” (Justine).
        Já rico com suas trapaças, Dalville vai embora, deixando um substituto nos negócios: Roland, um homem aparentemente bom, que liberta as jovens daquele humilhante trabalho e lhe emprega na oficina de cunhagem de moedas. Contudo, a polícia logo chega ao local e prende a todos, levando-os para Grenoble.

        O magistrado ouve a história de Justine e não permite que ela vá para a forca. Instala a jovem em um albergue e avisa que já está livre de todas as suas supostas culpas. Reconhece naquele lugar a ladra Dubois, que agora já é condessa. A mesma planeja roubar um comerciante que está encantado com Justine e pede a ajuda da jovem. Sabendo que Justine iria alertar o senhor Dubrevil, homem digno que promete casa-se com Justine, a ladra/condessa envenena o comerciante. O amigo do comerciante acredita nas palavras de Justine e recomenda que a mesma siga a senhora Bertrand.
        Alojada em um albergue em Villefranche, ocorre um incêndio. Na tentativa de salvar a vida da filha de Bertrand, Justine escorrega e acaba deixando a criança cair nas chamas. Notando que também fora roubada, a senhora Bertrand acusa Justine. Testemunhas acabam confessando ter visto Justine em várias cenas dos crimes descritos.

“Sabereis morrer inocente e pelo menos sem remorso” (Justine).
        No final da narrativa, Justine que omitira seu verdadeiro nome, usando o nome de Sofia, diz ser Justine. A senhora de Lorsarge, trata-se pois de sua irmã Juliette. As duas se abraçam e choram bastante. O senhor de Corville, amante de Juliette, promete ajudar Justine. Escreve uma carta que chega nas mãos do rei que com a ajuda de um advogado (o mesmo que encaminha Justine ao albergue assim que o magistrado lhe absorve de seus crimes, antes de conhecer a senhora Bertrand e dos infelizes acontecimentos) inocentam a jovem.

        Mesmo feliz, Justine não acredita nesse momento feliz, sentindo que a qualquer momento a sombra da infelicidade baterá a sua porta. Em um dia tempestuoso, ela é atingida por um raio e morre. Com esse acontecimento, Juliette se arrepende de todos os seus crimes do passado e abandona o senhor Corville. Pede perdão a providência e ingressa no Convento das Carmelitas.

“Oh, vós que ledes esta história, passai tirar dela o mesmo proveito daquela mulher mundana e corrigida; passais convencer-vos com ela que a verdadeira felicidade está somente no seio da virtude, e que se Deus quer que ela seja perseguida na Terra, é para preparar no céu a mais faustosa recompensa” (Narrador).

Referência: SADE, Marques de. Justine ou Os Infortúnios da Virtude. Apresentação e tradução de Edimond Jorge. Editora Entrelivros Cultural, s/d.


Apenas uma reflexão diante de tantas apresentadas nesta obra:



O mundo da heroína Justine não oferece ajuda sem desejar possuir sua virtude, o seu bem mais precioso, diante da miserável vida que leva. Todos querem corromper o seu caráter, apresenta-lhe vícios, um caminho mais fácil de se obter de forma errada riquezas... Uma sociedade de falso moralismo, movida a sadismo, crueldade... Poucos são aqueles que se podem confiar. No  mundo de hoje, mudou-se os métodos (ou apenas camuflou-se), mas as pessoas são as mesmas, tentando explorar e obter vantagem das pessoas mais “fragilizadas” psicologicamente, sexualmente ou socialmente. Em se tratando especificamente da “virtude”, há um universo de apelo sexual que a todo custo diz aos jovem que desfaçam-se o mais rápido possível de suas virtudes, sem levantar ao menos, um questionamento sobre as consequências e outras escolhas que você pode ter na vida. Algumas ideias de Freud eu discordo, mas concordo quando ele diz que muito dos problemas da nossa sociedade estão ligados ou relacionados com a sexualidade. Enfim, discutir sobre a virtude parece ainda ser algo bem complexo e nada de ultrapassado, não é?

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2 comentários

  1. Muito obrigado por tanto esmero em sua resenha. Conseguiu proporcionar uma visão bastante completa da epopeia de Justine.
    Suas considerações finais acerca da obra, fecham com louros seu trabalho.
    Obrigado pelo empenho... boa sorte!

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    1. Eu é que agradeço o tempo que você dispôs para acessar meu blog e ler esta resenha. Boa sorte pra você também!

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