A CARNAVALIZAÇÃO LITERÁRIA NA OBRA MACUNAÍMA:

8/12/2015 09:13:00 AM

*trabalho que fiz quando eu cursei Letras

Fabíola Santos Alencar[1]
Francisca Raquel Queiroz Alves Rocha
 
 (imagem do filme Macunaíma)

                  O presente paper tem como finalidade apresentar uma análise à respeito do fenômeno da carnavalização literária na obra Macunaíma, de Mário de Andrade. A carnavalização é uma incorporação dos princípios carnavalescos, tais como: liberdade do riso, igualdade social, sagrado x profano, paródia de textos sagrados, ou seja, é uma espécie de transmutação dessas e outras características carnavalescas aplicadas à literatura.

                  Sabe–se que Mário de Andrade pertenceu ao período do Modernismo. Em todas as suas obras, lutou por uma língua brasileira que estivesse mais próxima do falar do povo, além de abordar temas relacionados ao folclore brasileiro. Em Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, o autor enfoca o índio, a tradição e mistura de culturas, valendo–se de profundos estudos sobre o folclore.

                  A obra em questão narra a história do índio Macunaíma, jovem preguiçoso, pervertido e ganancioso, irmão de Jiguê e Maanape, um feiticeiro. Gostava de “fazer pegadinhas” com os irmãos e também com os seres místicos, como por exemplo o Curupira. Macunaíma seduziu as mulheres de seu irmão Jiguê, Sofará e Iriqui. Por uma ilusão do Anhanga (Anhangá ou Anhangüera que significa supostamente "Coisa Ruim". Ele é o protetor da caça no campo e nas florestas; Anhangá protege todos os animais contra os caçadores e quando a caça conseguia fugir os índios diziam que Anhangá ou Anhangüera as havia protegido e ajudado a escapar. Para os jesuítas catequizadores, Anhangá era comparado ao demônio da teologia cristã) acabou matando a própria mãe. Com esse acontecimento, eles partem de sua tribo, mas logo Macunaíma encontrou uma nova companheira, Ci a Mãe do Mato, tornando–se o novo imperador do Mato Virgem. Tiveram um filho, porém Ci e o curumim morreram e como se não bastasse, Macunaíma perdera a muiraquitã, uma espécie de talismã, recordação de sua amada Ci. Essa pedra verde fora vendida para Vanceslau Pietro Pietra, o gigante Piamã, que morava em São Paulo.

          À partir daí começa as aventuras de Macunaíma e seus irmãos para o resgate da muiraquitã. Eles se deparam com uma realidade completamente diferente em São Paulo, onde tudo gira em torno da “máquina”. No final, o nosso herói recupera a muiraquitã. Depois de aprontar com Jiguê, o mesmo decide não caçar e todos estavam com fome. Macunaíma envenena o anzol, Jiguê se fere, morre e vira uma sombra que passa a perseguir seu irmão para vingar–se. A princesa, nova companheira do herói, adoece de zamparina (doença que prejudica o sistema locomotor e nervoso) e Maanape teve seu sangue chupado por um barbeiro. Macunaíma muito debilitado, planta uma semente de cipó e consegue subir ao céu. Pauí–Pódole faz um feitiço e transforma–o na Constelação da Ursa Maior.

                   Percebe–se nessa história várias características da carnavalização literária, de suas formas e símbolos, apontadas por Mikhail Bakhtin em seu livro A cultura popular na idade média e no renascimento. A primeira é o riso, “um princípio cômico que preside os ritos carnavalescos”; é o patrimônio do povo. Segundo Mikhail Bakhtin, “O riso e a visão carnavalesca liberam a imaginação humana”, que ficam assim disponível para o desenvolvimento de novas possibilidades. A obra Macunaíma segue à risco essa característica em que se é possível obter o riso através de diálogos de duplo sentido, um texto seguido de várias palavras sem vírgula, no relato de certas ações feitas pelo herói Macunaíma, que culminam na criação de jogos e ditados populares, alcançando o objetivo desejado que é o efeito cômico, típico de festivais carnavalescos onde o importante é transmitir a alegria, o contentamento e a descontração. Como exemplo, temos os dois lemas do herói “Ai! Que preguiça!” e “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!” e uma adivinhação proposta pela filha mais nova do gigante Piamã, recheada de duplo sentido:

“– Agora o que é o que é: Qual o lugar onde as mulheres tem mais cabelo crespinho?– Ôh,que bom! Isso eu sei! É aí!– Cachorro! É na África, sabe!– Me mostra, por favor....” (pág. 133)
 
               
                 Sabe–se que nas festas carnavalescas é comum ser feita paródias de textos sagrados. Como o seu próprio significado exemplifica, a paródia é uma imitação cômica de uma composição literária, uma imitação burlesca. No livro, destaca–se uma paródia a respeito do texto bíblico sobre a criação do mundo e outro texto em que há uma referência sobre os doze apóstolos que seguiam o seu messias, os quais estavam reunidos em uma mesa. Pauí–Pódole, o pai Mutum diz para Macunaíma “Já somos em doze e com você a gente ficava treze na mesa” (pág. 217)
“No princípio era só o Jaboti Grande que existia na vida... Foi ele que no silêncio da noite tirou da barriga um indivíduo e sua cunhã. Êstes foram os primeiros fulanos vivos e as primeiras gentes da vossa tribo.” (pág. 217)  “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia (....) Deus criou o homem a sua imagem e semelhança (...) E da costela que tinha tomado do homem, o senhor Deus fez uma mulher, e a levou–a para junto do homem.” (Bíblia Sagrada, livro Gênesis)
 
 
              Também nota–se a profanação ao sagrado ou blasfemas dirigidas às divindades e o personagem diabo que segundo Mikhail Bakhtin “é um alegre porta–voz ambivalente de opiniões não–oficiais, da santidade ao avesso, o representante do inferior material”. Macunaíma vai à um terreiro para que seja feita uma macumba contra Venceslau, terreiro este visitado por todos os tipos de gente, independente da condição social, na qual pode–se dizer que há uma quebra das barreiras que dividem a sociedade, como numa festa carnavalesca, em que se aboli provisoriamente as diferenças hierárquicas entre as pessoas, tornando–as uma família. Nesse capítulo existe alguns trechos que podemos notar o sagrado x o profano, bem x mal “Vai um rapaz filho de Ochum, falavam, filho de Nossa Senhora da Conceição cuja macumba era em dezembro (...) Nosso Padre Exu (...)” (págs. 74 e 75).

                  Destaca–se no livro A cultura popular na idade média e no renascimento o princípio da liberdade nos festivais carnavalescos, nos quais a pessoa vive intensamente esse ideal, essa regra, essa lei, a lei da liberdade, eliminando toda espécie de regras e tabus vigentes na vida cotidiana. O indivíduo tem o direito de fantasiar a respeito de sua própria realidade, fato este presente no livro de Mário de Andrade.
                 Um dos aspectos marcantes no carnaval é a morte e a ressurreição do indivíduo. A morte é vista como uma espécie de renascimento. Na obra existe três situações em que Macunaíma morre e por meio de algum feitiço retorna a vida. A 1ª morte é quando o gigante enterra uma flecha no peito do herói e Maanape, juntamente com a sarara Cambgique e o carrapato Zlezlegue fazem todo um “ritual” para reviver nosso herói. A 2ª morte é quando um macaco mono “prega uma peça” e o herói morre, mas logo é ressuscitado pelo irmão. Na 3ª morte, Pauí–Podolé transforma Macunaíma na Constelação da Ursa Maior.

                   No livro de Mikhail Bakhtin, “os palavrões contribuem para a criação de uma atmosfera de liberdade e do aspecto cômico secundário do mundo” e acrescenta que existe ainda o “princípio da vida material e corporal”, onde valorizar–se a imagem do corpo, da bebida, da comida, da satisfação de necessidades naturais e da vida sexual (explicitação do relacionamento sexual). Logo no 1º capítulo da obra podemos perceber essas marcantes características carnavalesca. Como por exemplo, citamos o personagem Macunaíma “Então adormecia sonhando palavras–feias, imoralidades estrambólicas (...)” e em outro trecho “Fazia uma coleção de palavras–feias de que tanto gostava”. O nosso herói também gostava de criar palavrões, que “caíam na boca do povo”. Na obra, vale ressaltar as constantes imagens do corpo ( Então bem de mansinho o herói pôs o sim–sinhô dele na boca do buraco...) e principalmente da vida sexual, tão presente nos festejos carnavalescos, sob os quais Macunaíma inventava posições, brincadeiras para intensificar a relação sexual. O personagem sempre pensava no sexo, até perto de morrer, fez sexo com uma suposta linda mulher e foi devorado pelas piranhas.

                    A máscara e a fantasia fazem parte da caracterização do sujeito e “traduz a alternância das reencarnações, a alegre negação da identidade e do sentido único”, ou seja, a máscara representa a metamorfose do personagem. Há momentos em que Macunaíma e seus irmãos se transformam e objetos e animais, onde nessa transformação adquirem as qualidades e características que representam tal transformação. Em um episódios, os três irmãos se deparam com um poço e ao mergulhar nele, cada um saí de uma cor diferente, o que representa diretamente a miscigenação brasileira, a fusão das três culturas (índio, negro e branco [europeu]).

                 O livro também é recheado de críticas. No capítulo “Cartas pras Icamiabas” nota–se uma crítica em torno do português clássico x a língua falada (a língua popular) expressado na mistura de ambos ao escrever a carta. Em outro capítulo, enquanto esperava o índio Antonio “Macunaíma aproveitara a espera se aperfeiçoando nas duas línguas da terra, o brasileiro falado e o português escrito”; critica a estrutura social e governamental da época, onde observar–se uma crítica até a respeito dos inúmeros feriados existentes no país (“Afinal chegou o domingo pé–de–cachimbo que era o dia do cruzeiro feriado novo inventado pros Brasileiros descansarem mais”) e o brasileiro preguiçoso e oportunista, tão bem representado pelo porta–voz do jargão “Aí! Que preguiça!”; critica a ganância humana, na qual o homem só valoriza o dinheiro, só pretende obter mais dinheiro e acaba perdendo os seus valores morais na tentativa de obtê–lo; e por fim, critica o estrangeirismo e sua influência nos costumes da época.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na idade média e no renascimento– O contexto de François Rebelais. Editora HUCITEC. 5ª edição.
ANDRADE, Mário de. Macuaníma– O herói sem nenhum caráter. São Paulo, Livraria Martins Editora S.A, 6ª edição.
TERRA, Ernani e José de Nicola. Gramática, Literatura e Produção de Textos. São Paulo. Editora Scipione, 2002.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Dicionário Aurélio Escolar. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 5ª edição.
Bíblia Sagrada. Tradução dos originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica) pelo Centro Bíblico católico. São Paulo, Editora Ave Maria.122ª edição, 1998.



[1] Alunas da Universidade Regional do Cariri – URCA     Disciplina: Cultura Literária

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários