#Tag Desafio 12 meses de Poe (fevereiro)

2/25/2016 07:06:00 AM

Neste mês, seguindo o meu calendário, a obra analisada será o poema THE RAVEN de Edgar Allan Poe (tradução de Fernando Pessoa):
Um dos poemas mais intrigantes da história da Literatura Americana é, sem sombra de dúvida, O Corvo. Essa obra imortalizou o nome de Poe no cenário da Literatura Universal. O ambiente, os personagens e o próprio enredo são fascinantes e ao mesmo tempo perturbadores, eternizando o refrão “Nevermore” na mente e nos corações daqueles que o admiram. Poe e o jovem personagem do poema compartilham a mesma personalidade do amor romântico, o objetivo de ser feliz ao lado de uma mulher.

Num dado momento de sua vida, a saúde de sua amada Virgínia piorava e no começo do verão de 1844, Poe mudou–se para uma fazenda. Numa encantadora solidão rural, gozou de um breve período de paz. Durante este intervalo, escreveu “O Corvo”. Em janeiro de 1845, o poema foi publicado no Evening Mirror.


A respeito das inúmeras traduções do referido poema, destacam–se a de Fernando Pessoa e Machado de Assis, duas figuras ilustres da literatura. Será analisado nessa monografia a tradução feita por Fernando Pessoa. Para Rennó (OLIVEIRA et al, 2003, p. 29–30), no livro Literatura e Música,


[...] Pessoa mantêm a mesma métrica definida no original, não apenas restitui os significados mais essenciais dos versos em inglês (uma língua muito mais sintética que a nossa), como, ainda por cima, o faz reproduzindo em português a mesmíssima música que o poema apresenta em seu idioma de partida. É simplesmente notável [...].
 
 




  

O Corvo
Poema de Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

No projeto da revista Literatura e Música deste mês, o assunto tema foi o poema O Corvo de Poe e a música da banda de metal gótico alemã, Xandria:
RevistaRevista Literatura e Música -  Ano 1 -  Nº 004Aintertextualidade damúsica"Ravenheart"dabandaXandriaeopoema"The...

Também, há uma entrevista na qual esclareço as intertextualidades das mulheres ficcionais e reais da vida e obra de Poe, relacionando-as com as poesias de meu livro. Confira abaixo

EntrevistaDESCOBRINDOOSSEGREDOSDOLIVROASMULHERESDEPOE

A poesia escolhida no meu livro que aborda a atmosfera do poema O Corvo, segue abaixo:

Metamorfose da mentira

Um grane corvo mal e mentiroso chegou perto de mim
Com sua pele de cordeiro, escondendo as garras afiadas de um lobo
E me fez sangrar até a última gota
E me fez chorar noite e dia
Batam palmas para ele, o olho do mal
A mão que sufoca, o ar tóxico em meus pulmões

Um grande corvo quis ser meu amigo para sempre
Com sua pele espinhosa de uma cobra cujo veneno saiu
E me fez beber cada gole
E me fez chorar noite e dia
Batam palmas para a metamorfose da mentira
A mão que acaricia, a faca em meu pescoço

Imortais palavras articuladas para me enganar
Como uma peça do jogo, eu deixei ser guiada
E assim, depois de tanto tempo meus olhos puderam ver
Depois que a tempestade passou
Tudo que eu quero é esquecer você
Imortais palavras articuladas para me enganar
Deus sabe o quanto amei, tudo que eu fiz por você
E assim, depois de tanto tempo
Esse é o troco que recebo?
Depois de eu ter dado a minha vida?

Um grande corvo comeu a minha carne apodrecida com ânsia
Com sua pele brilhante preencheu a noite prateada
E me fez perceber a estupidez que eu fiz
E me fez chorar noite e dia
Batam palmas para a ignorância dos tolos
A mão que me toca, agora está morta!

O céu e a terra te viram ranger os dentes
O céu e a terra te viram padecer
Monstro que assombra minha mente
Volta ao teu tormento infernal

Larga-me! Eu não te quero mais!

Conheça mais sobre meu livro, clicando na imagem abaixo:


No blog da Anna Costa e no facebook oficial do projeto, o conto escolhido para ser discutido este mês foi O demônio da perversidade:

Anna Costa
Acompanhe a discussão coletiva das impressões da primeira obra de Poe neste ano de desafio de leitura ;)




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Sumário: Literatura e Música Parte 1- Vida e obra O corvo
 Literatura e Música Parte 2- Legado de una tragedia e o Gato negro 
Literatura e Música Parte 3- O poema Alone e a banda ARCTURUS. 
Literatura e Música Parte 4- William Wilson 
Literatura e Música Parte 5- A morte das máscara rubra 
Literatura e Música Parte 6- El cuervo de Poe 
Literatura e Música Parte 7- O poço e o pêndulo / o poeta e o pêndulo 
Literatura e Música Parte 8- Lady Ligéia e a banda Belladonna 
Literatura e Música Parte 9- William Wilson 
Literatura e Música Parte 10- Os assassinatos da rua Morgue e a banda Iron Maiden 
Literatura e Música Parte 11- Evening Star e a banda  SCARLET’S WELL 
Literatura e Música Parte 12- Por que eu sou Edgar Allan Poe! Curiosidades
 Literatura e Música Parte 13- Berenice e a banda Finch   
Literatura e Música Parte 14- O fim de toda históriaip

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E vocês, o que acharam da proposta? Leram algo de Poe? Beijos

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