Capítulo 3: Ilusões

3/28/2016 10:20:00 AM

“E ela ainda reclamou com aquelas meninas que me empurraram lá no corredor. Você devia ter visto a cara delas. Pareciam que queriam cavar um buraco e enfiar a cara dentro.”

            “Nossa!” Falou Lili em meio a uma mordida na coxinha de galinha. “Isso foi demais. Elas se acham. Mereceram essa bronca.”

            “Eu vou procurar minha irmã e volto já, ok?”

            “Você não vai comer? O intervalo vai já acabar. É por isso que você é tão magrinha... Na certa, não come direito.”

            “Tchau Lili.” Saí correndo, antes que eu ficasse zangada com os seus comentários. Na verdade, eu queria andar e me aventurar por aquela escola. Em vários lugares, grupos diferentes de alunos viviam na sua sociedade relativa. Eu tentava ver onde eu poderia me encaixar, mas pelo visto nenhuma delas me agradava. De longe, avistei Tessy e seu amiguinho Noam, que agora estava grudado nela que nem chiclete. E para a minha surpresa, ela havia se tornado até amiga de Kate e Suse. Depois, descobri que Noam era líder do time de futebol americano da escola, daí eu percebi que nada melhor do que fazer o seu 1º contato com os populares para se tornar um deles. Essa era a filosofia de Tessy.

            “Ei, Ávila, a aula vai começar. Se chegar atrasada, o professor de Literatura fica um fera. Ele é 1000 vezes pior do que Mary. Nada de conversar na aula dele ou ficar viajando na maionese. É repreensão na hora e um puro mico na sala. Ele te deixa na maior saia justa, quer dizer, ele te deixa só de calcinha.”

            “Você é sempre assim? Tão engraçadinha?”

            “Quando eu estou bem alimentada, eu fico muito feliz e... Obrigado pelo elogio.”

            “De nada. É melhor a gente ir.”

            A aula de Literatura era a mais interessante, apesar de ser ministrada pelo professor linha-dura, o senhor Robert Primus Countville. Como um de meus hobbies era ler, eu me sentia muito à vontade para debater certas questões.

            “Olá alunos. Vou ser mais direto. Quem foi Alexander Whitaker?” Um silêncio insuportável reinava na classe. Todos olhavam uns para os outros, mas ninguém respondia. Alguns alunos nem prestavam atenção, não no sentido ‘real’ da palavra. Eu podia perceber que eles ‘viajavam em outro espaço e tempo’.

            “Não se admite chegar a essa altura do campeonato e não saber nem quem foi um dos percussores da Literatura Americana! Vou repetir a pergunta e ninguém sairá dessa sala, até que uma alma viva fale algo à respeito dele.” Antes dele lançar a pergunta, eu me atrevi a respondê-la:

            “Era filho de William Whitaker, foi para Virgínia em 1611, era conhecido como o ‘Apóstolo de Virgínia’, batizou Pocahontas e escreveu o sermão ‘Good News from Virgínia’ em 1613.” Eu parecia uma metralhadora que não queria parar de atirar. Ele fez um sinal com as mãos e eu me calei. Levaria outra bronca, agora?

            “Espetacular! Pelo menos uma alma que vive para ler. Muito bem, querida. Todos os alunos, com exceção dessa garota, escreverão uma redação de 50 linhas sobre a vida e obra desse autor. E quem não me entregar, considere-se reprovado. Estão dispensados.”

            “Você foi demais, querida! Me salvou de ficar não sei quantas horas olhando para aquela cara feia...”

            “Acho que agora vou comer, Lili. Onde tem uma lanchonete mais perto?”

            “Ah, também, depois de dar uma super aula e deixar o professor Carrasco boquiaberto, só pode ter sentido fome. Com certeza, você gastou muita energia, amiga. Nós vamos para uma lanchonete bem bacana.” Nos dirigimos a um local chamado Coffee’s Ben, um lugar bastante confortável e tranquilo. Hoje tinha sido o meu 1º melhor dia de aula. Apesar do mico no ônibus, de minha irmã me zoando, da trombada com Kate e Suse e da esplêndida bronca que levei, o restante saiu como eu queria. Além disso, acho que eu encontrei uma amiga de verdade. Lili era uma menina encantadora. Ela era baixinha, um pouco gordinha, pele clara, olhos verdes como grandes esmeraldas e cabelos loiros. Ela morava na Rua Green Hill, do outro lado de Coldland.

            “Ávila, vamos lá pra minha casa?”

            “Não, hoje não, Lili. Acho que vou passar na delegacia e visitar meu pai. Depois tenho que ir para casa e terminar de ler o livro ‘The Canterbury Tales’, lavar a louça, assistir algum programa besta, suportar minha irmã chata...”

            “Isso não é desculpa, mas vou deixar passar desta vez. A gente se vê amanhã, não é?”

            “Se eu estiver viva, é claro que sim.”

            “Ok. Então eu vou ligar para a minha mãe vir me pegar.”

            “E eu vou pegar o ônibus. Tchau.” Eu estava feliz por estar em Coldland. Vivíamos mudando de cidade em cidade, por causa do trabalho de meu pai, ou por não conseguir se adaptar em um certo local ou em virtude de ‘novas inspirações’ para os trabalhos de minha mãe, que segundo ela mesma “Nasceu com a alma errante”. Ela era uma artista plástica. Não tão famosa, como Lois Mailou Jones, uma pintora negra que nasceu em Boston e pertenceu ao Harlem Renaissance. A senhora Alexia Von Kurts tentava ser reconhecida e mais ainda: fazer sua arte correr os quatros cantos do mundo. Porém, agora em Coldland, ela buscava novas inspirações para seu próximo trabalho, enquanto meu pai se firmava como autoridade e homem digno em Coldland.
           





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