Capítulo 2: Bem vindos a Coldland!

3/22/2016 07:20:00 AM

Coldland era uma cidade pequena, mas acolhedora. Nossos novos vizinhos me pareciam pessoas bem legais e nos receberam de braços abertos... Braços abertos... Comecei a suar frio, receosa da recepção que meus “novos colegas” fariam. Eu não sou boa em fazer amigos, acho que o problema não sou eu. Não sei explicar qual seria o motivo do repúdio que a maioria das pessoas sentiam por mim. Já estava acostumada a viver na solidão, mergulhada em livros ou assistindo algum programa de TV idiota. Essa era a minha vida. Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho que o pessoal fazia no ônibus que parou na nossa frente. Eles pareciam detectar os rostinhos das novatas... e principalmente de novatas assustadas... Quer dizer, só havia eu.... Tessy parecia não se importar com os olhares. Subimos no ônibus e as pessoas não paravam de nos olhar e cochichar. As cadeiras estavam ocupadas com livros e mochilas, mas um rapaz cedeu o seu espaço para que minha irmã sentasse. Eu fingia que não estava nem aí, aparentemente apreciando a paisagem, enquanto o garoto flertava com minha irmã.

            “Ei gatinha, como você se chama?”

            “Tessy, e você?”

            “Noam. Prazer em te conhecer. É o seu 1º dia de aula, não é?”

            “É. Estou super entusiasmada. Conhecer novas pessoas significa novas experiências para mim. Eu não sou tão antissocial como a minha irmão aí.” Tessy apontou o seu dedo na minha direção. Eu tentei sorrir, mas eu estava muito envergonhada com aquela situação. Eu percebei que ela falava mal de mim para o desconhecido, ou seja, Tessy já começava a me “queimar” antes do tempo.

            “Ela nem parece ser a sua irmã. Você é muito mais bonita e diferente dela.”

            “É o jeito estranho dela que espanta os garotos.” Agora a conversa mudava de rumo. Críticas e mais críticas aumentavam a teia de aranha que minha irmã construía com a ajuda de seu amiguinho Noam. Para evitar uma briga em pleno 1º dia de aula, resolvi ouvir música e deixar o tempo passar. Enquanto ouvia música, eu adormeci e quando o motorista freou, eu só não voei ônibus à fora porque acordei e rapidamente pude me segurar na cadeira do motorista. Todos ficaram zoando da minha cara. Era o meu 1º ‘Mico Oficial em Coldland’. Minha irmã nem ligou para mim e mantinha o ritmo de sua conversa com Noam tranquilamente.

            “Chegamos querida. Qual é a sua turma?”

            “É a 163.”

            “Não se preocupe. Eu me comprometo em ser o seu guia turístico da High Scool Coldland.”

            “Ei, Vilinha, tchau, maninha querida.” Agora foi que Tessy percebeu que eu também estava no ônibus? Meus olhos ultra penetrantes foram a única resposta que ela obteve. Como ela pode ser tão falsa, tão cara de pau? Ela fala mal de mim na minha frente, ‘queima o meu filme’ no ônibus, ri do meu mico e ainda tem a audácia de fingir que tudo está bem?

            “Droga! Tudo isso é uma droga!” Eu resmungava baixinho quando uma garota me empurrou. Só me faltava essa...

            “Ei garota, saí do meio, porque Kate White vai passar e você está bloqueando o espaço.” Eu queria ter dito ‘Eu não sabia que ela ocupava tanto espaço assim. Talvez eu precise perder alguns quilinhos ou você precisa usar óculos’, mas como sempre, a covardia é o meu ponto forte. Simplesmente eu me afastei e fui localizar o meu armário.

            “Olá novata. Não liga para a Suse. Ela vive feito um cachorrinho, fazendo tudo que a 1ª dama Kate White manda. Pobre coitada! Ela sonha que um dia Kate vai coloca-la no grupo de Líderes de Torcida... Aliás, meu nome é Lili. Lili Curteeman.”

            “Legal. Meu nome é Ávila.”

            “Você é daqui?”

            “Não. Sou de International Falls. Nos mudamos devido ao trabalho de meu pai. Ele foi nomeado xerife dessa cidade.”

            “Seu pai é o xerife? Nossa, que irado! Você pode fazer tudo que for de ilegal e não ser presa!”

            “Se você diz, quem sou eu pra dizer que não?”

            “Qual é a sua turma?”

            “Sala 261. 1ª aula: História”.

            “Isso é uma baita coincidência! Eu também sou da turma 261. Acho que seremos boas amigas!”

            “Ok... Se não se importa, eu poderia ficar um minutinho sozinha? Eu preciso fazer uma ligação muito importante.”

            “Certo, sem problemas. Eu só vou ficar ali no corredor. Fico te esperando.”

            “Tá bom.” Nossa! Essa menina estava me sufocando! Ou talvez eu estivesse impressionada por, pela 1ª vez, alguém querer ser minha amiga, sem nem me conhecer direito? Ela me parecia ser uma pessoa legal, que assim como eu, também era excluída do ‘mundo social’ e como era o início do ano escolar (nas High School dos EUA, geralmente as aulas começam em agosto ou setembro), ela precisava se aliar a alguém para não começar o ano escolar tão excluída assim. Fui ao banheiro, para tentar arrumar o meu cabelo selvagem, que parecia a juba de um leão. Cansei de lutar contra ele e no final tive que prendê-lo. Pensei em tirar os óculos para ver se talvez mudaria alguma coisa, mas eu não iria conseguir enxergar nada, então era melhor evitar uma ‘Topada Espetacular’ e acabar caindo no Youtube como ‘O mais novo mico de Ávila Kurts’.

            “Ei novata, aqui, aqui.” Eu acenei de volta e fui em sua direção. Entramos na sala e todos me olhavam atravessado, principalmente porque eu sentei ao lado da estranha Lili, tão estranha quanto eu.

            “Acho que se você estivesse vestida melhor e soltasse esse cabelo, ficaria mais engraçadinha.”

            “Obrigado pela parte que me toca em seu comentário.”

            “Eu não quis te ofender, de jeito nenhum. Só acho que você tem potencial, quer dizer, eu consigo enxergar além de sua alma e vejo que você é muito mais do que aparenta ser. Parece que tem medo de tirar essa máscara e mostrar quem é realmente.”

            “Dá pra parar, Lili? Senão eu vou sentar em outro lugar. Você fala demais e quando liga esse botãozinho, não desliga mais.” A porta foi aberta abruptamente, e eis que surge a professora responsável pela 1ª aula.

            “Ok, alunos, a festa acabou. Eu sou Mary William, sua professora de História. Alguns já me conhecem, outros não... Bem, temos aqui uma celebridade entre nós. A filha mais velha do nosso xerife John Kurts. Como se chama, querida? Eu me lembro que a mais novinha é a Tessy, mas o seu nome, eu não consigo lembrar....”

            “Eu também não consigo lembrar do seu nome.” Saiu essa ‘indireta’ e eu não me arrependi. Os alunos zoaram da professora, dizendo “Vai de novo”, mas ela não se importou. Apenas sorriu para mim, um sorriso mais falso do que o da minha irmã quando eu perguntava “Essa roupa tá boa?”...

            “Ok. Vamos começar a aula de hoje falando sobre a Revolução Americana de 1776.”

            “Sim senhora!” Responderam os alunos em um coro estrondeante. Quando todos saíram, a professora Mary agarrou o meu braço com força e sussurrou em meu ouvido:

             “Não faça mais gracinhas, senhorita Kurts. Não tente me desmoralizar na frente de meus alunos. Quando eu fizer uma pergunta, apenas responda. Seja clara e direta.”

            “Desculpe, se é isso que você quer ouvir.” Enquanto ela me repreendia, a ‘Miss Coldland’ entrou na sala.

            “Ah! A mosca morta é dessa sala, Suse...” Falou Kate para a sua amiguinha. Mary virou-se para as duas e desferiu um sermão pior do que o meu.

            “Senhoritas White e McLack... Por que vocês faltaram à aula hoje?”

            “A minha falta é justificada, senhora William. Estava em uma reunião para selecionar as novas meninas para o meu grupo de líderes de torcida. É de extrema importância começar desde cedo a organizar, porque o campeonato estadual vem aí...”

            “As aulas mal começaram e vocês já pensam nisso? Faltam 3 meses, meninas. Não usem esses tipos de justificativas para se ausentar de minhas aulas. Estão avisadas.” Kate White ficou vermelha de raiva, com vontade de dizer umas poucas e boas para a professora Mary, mas se conteve. Sua amiga Suse parecia inconformada com a bronca ou envergonhada porque eu estava lá e ouvi tudo. A senhora Mary pegou o seu xale e saiu. Ficamos nós três na sala e logo as duas saíram, soltando fumaças pelas ventas. Lili estava no refeitório se entupindo de comida quando eu cheguei.

            “O que aconteceu? O que a professora Mary te disse?”

            “Que eu não a desmoralizasse na frente dos alunos e provavelmente na próxima vez que eu fizesse tal ato, iria notificar aos meus pais. Que ridículo!”

            “Não liga, não. Ela é meia desmiolada. Tem dia que ela é um anjo, outros que é melhor ficar longe dela. Aquela carinha de boa senhora é seu disfarce. Tome cuidado. Ela é uma cobra peçonhenta.”


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