Capítulo 10: O encontro parte 3 (final do diário)

4/26/2016 07:05:00 AM

Pelo menos hoje tinha uma cadeira vaga. Me sentei e fiquei ouvindo música, já que Tessy se acomodava em outra cadeira, o mais distante possível e ficara grudada com o seu colega Noam. Enquanto íamos para a escola, de repente, parecia que alguém havia sussurrado em meu ouvido o meu nome “Ávila... você é a...”. Não consegui entender o resto, devido ao barulho que a galera fazia ao avistarem a ‘Musa de Coldland’ com o seu novo carro importado. Entre os comentários, tais como: “Nossa! Ela é tudo de bom”, disse um rapaz. “Ela já trocou de carro duas vezes só no início do ano”, falou uma menina que mordia os lábios de inveja. “Como é bom ser rica. Não é preciso andar nesse aperto”, resmungou outro menino na minha frente. Mas o que eu queria saber era quem havia falado comigo. Do meu lado, uma menina devorava uma barra de chocolate. Mentira. Eram duas barras. Atrás de mim, um casal de namorados que não estavam nem aí pro restante de nós. Então quem foi capaz de falar tão alto, a ponto de superar o volume 30 do meu mp4? Superou a voz de Tobias Sammet, na música Dying for an Angel? “Ávila... você é a..”. Eu sou o que? Isso com certeza foi um efeito da auto-dosagem de medicamentos ou efeito da pancada na cabeça. Definitivamente, eu não estava bem. Ao descer, me separei de Tessy, que fez um sinal de até logo e sumiu. Logo na porta da sala de aula, estava Lili, que se assustou ao me ver.

            “Santo Céu! O que houve com você? Foi atropelada por búfalos selvagens?”

            “Eu sei, estou horrível, né?”

            “Não, tonta. Eu digo pelo curativo na sua cabeça, essa faixa aí. O que houve? Você nem veio ontem... Fiquei boiando na escola, tentando conversar com um e como outro, mas ninguém prestava atenção no que eu dizia.”

            “Desculpe, mas eu sofri um acidente de ônibus. Você assiste telejornal? Ouviu falar a respeito de um motorista de ônibus da linha 26 que morreu recentemente?”

            “Ouvi algo assim no noticiário. Não sabia que você havia se machucado.”

            “Só foi um corte de nada. O médico foi quem fez um assombro danado, mas estou bem, né?”

            “É. Isso é o que vale. Vamos entrar que o Freddy Krueger está chegando.” Nos sentamos e ficamos observando o alvoroço que os babões de Kate White faziam. Só faltavam cair no chão, como um tapete vermelho e esperar que ela pisasse neles.

            “Ela pensa que é muito importante, que é alguma celebridade de Hollywood.”
 Lili me disse, mas preferir não prestar atenção à essas coisas.  O que eu agradeci aos céus foi a rapidez com que as aulas de hoje acabaram. Já era a hora do intervalo. Kate, Suse, Noam, Tessy e outros desconhecidos estavam reunidos em várias mesas do refeitório e como sempre, isolados do restante dos outros grupos. Notei que falavam de mim, porque quando falam de você e apontam, é porque é fato: estão te ‘tesourando’ pelas costas, pela frente... E uma das pivôs disso era a minha própria irmã! Fiquei pensando em qual segredo obscuro ela estaria revelando, entretanto, eu nunca havia confessado nada de minha vida particular a ela. Acho que meu pai sabia de mais coisas sobre mim, do que ela mesma. Porém, e se ela tivesse falando de ontem? Da visita do policial super gato, o Lin? Se ela contasse como me desmoralizou na frente dele? Isso não!

            “Você está pensativa demais. Pare de se importar com o que os outros possivelmente falam de você. Eu mesmo já me acostumei com isso. Se minha vida é tão importante, a ponto de eles perderem o tempo de suas vidas para observar a minha, é porque eu sou importante para eles.”

            “Espere um minuto para eu raciocinar... Uhhh, entendi!” O intervalo terminou e fomos para a sala. Kate White ficava soltando piadas indiretas e diretas para mim, do tipo “O espantalho assombrou o gatinho”, “Tire essa máscara de Halloween”. Uma menina que estava do meu lado, balançou a cabeça para mim, como se fosse um sinal de reprovação pela atitude infantil de Kate. Outros riam das piadas, na certa esperando algum favor em troca. Ela só parou de me perturbar, quando uma professora chegou.  Essas aulas foram insuportáveis ou seria a presença de Kate? Levantei as mãos para os céus quando o sinal tocou e eu pude sair daquela escola.

            “Você não vai esperar sua irmã?”

            “Nos separamos hoje. O cordão umbilical foi cortado. Lili, eu pretendo visitar a sua casa, se você não se importa...”

            “Mas é claro que vai ser um enorme prazer! Nossa, se eu soubesse que a filha do xerife iria visitar a minha casa, eu tinha pedido para a minha mãe fazer um bolo de chocolate e nozes que não tem pra ninguém! Vou ligar agora mesmo para ela vir nos pegar.”

            Enquanto Lili ligava para a mãe dela, eu senti algo estranho. Não sei descrever essa sensação, a única coisa que eu posso dizer é que meu coração foi de zero à mil. Parecia que ele estava prestes a sair pela boca. Respirei fundo, mas as batidas agitadas do meu coração não cessavam. Lili não percebeu nada, pois estava preocupada em dar orientações para sua mãe, do tipo ‘Não me chame por apelidos’, ‘Não me faça vergonha’ e outras coisas, que não me atentei a ouvir. De repente, parecia que o cheiro daquele desconhecido tinha invadido a minha mente, aquele cheiro marcante... Será que ele poderia estar por perto?

            “Onde você vai?”

            “Procurar uma pessoa. Quando sua mãe chegar, dê um toque pro meu celular, aqui está o número.” Arranquei uma folha do meu caderno e anotei o número do celular que meu pai havia me emprestado, já que o meu havia sido destruído na colisão do ônibus. Andei pelo quarteirão do colégio. O cheiro deixava uma trilha invisível, que eu conseguia ver, literalmente falando.

            Quanto mais eu andava, mais eu sentia que estava próxima de encontrar o desconhecido daquele dia. Foi então que a trilha terminou, em frente a uma casa rústica e assustadora. Algo estranho também aconteceu naquele exato momento: não sei se a mãe de Lili demorou a chegar ou se eu me desviei dos arredores da escola. Tentei observar tudo que estava ao meu redor e do nada, um cachorro super enorme e furioso, partiu para cima de mim. Eu fiquei paralisada naquele lugar. Por mais que eu quisesse correr, o meu cérebro não processava o comando e minhas pernas permaneceram paradas. Eu quis gritar por socorro, mas de meus lábios não saíam nada. Uma onda de medo se espalhou pelo meu corpo. Foi então que o cheiro misterioso se intensificou ao meu redor, eu fechei os olhos porque o cão feroz disparou em minha direção, com sua boca aberta, pronto para devorar o seu banquete. O cheiro me envolveu por completo.

            Eu não sentia os passos do cachorro e decidi abrir os olhos. O que eu vi, foi a coisa mais linda de todo mundo: o rapaz misterioso. Ele era um verdadeiro Apolo na Terra! Fiquei sem fôlego ao ver o cão do seu lado, tão quietinho, tão dócil, parecendo um animal domesticado. Como posso descrever tamanha perfeição divina? Desculpe-me pela descrição singela, mas é só o que posso fazer: o rapaz era alto, acho que quase da mesma estatura de Lin, tinha a pele escura e brilhante, cabelos pretos e lisos que tocavam seus ombros largos, olhos azuis como o imenso oceano, que me convidava a entrar em seu mundo. Apesar dessa beleza, algo de assustador transparecia em seu rosto. Suas vestes negras refletiam uma enorme tristeza interior. Eu podia sentir isso.


            “Desculpa garota. Fui imprudente. Deveria ter me certificado de que este animal estaria preso. Minhas desculpas.”

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