Capítulo 4: A chuva- parte 1

4/05/2016 07:43:00 AM

Meu celular tocou enquanto eu estava fazendo sinal para pegar o ônibus. Apressadamente, entrei nele e me sentei para atender a ligação. Era a minha mãe, querendo saber onde eu estava e porque eu deixei a Tessy voltar para a casa sozinha. Assim como minha irmã havia ignorado a minha presença, eu havia feito o mesmo.

            “Mãe, ela já é bem grandinha. Ele faz um monte de coisas sem a minha ajuda e não precisa eu ficar na cola dela, feito uma babá.” De longe eu ouvia os gritos dela dizendo “Mãe, eu não sou mais criança. Eu não preciso dela. Eu tenho 14 anos.”

            “Enquanto você for menor de idade e estiver morando na minha casa, você vai me obedecer. Da próxima vez que Tessy voltar sozinha pra casa sem a minha autorização, você vai ficar de castigo, menina.”

            “Certo, desculpa aí...” Tessy era a queridinha da mamãe. Era a super mimada e protegida. Na frente era um docinho de pessoa, mas por outro lado é uma fingida e invejosa. Sempre se gabava de seus longos cabelos castanhos e de sua beleza... Ela literalmente acha que é a Miss EUA! Fica passando na minha cara os inúmeros ‘namoricos’, enquanto que eu nunca beijei ninguém com essa idade (16 anos).

            “Você está vindo para casa?”

            “Não. Eu pensei em visitar o papai.”

            “Não demore muito, ok?”

            “Certo... Tchau.” O ônibus fez sua última parada no terminal em frente à delegacia. Desci meia enjoada (normalmente quando eu passo muito tempo no ônibus, eu fico assim, mas já estou acostumada) e entrei na delegacia. Na pressa para tomar fôlego e mandar o enjoo embora, não enxerguei um policial que estava na minha frente e acabei ‘trombando’ nele. Meu óculos voou uns 100 metros de distância. Ah, não foi tão longe assim, eu exagerei... Eu parecia a Vilma do desenho Scooby Doo, tateando o chão e procurando meus óculos. Nem me preocupei em pedir desculpas ao rapaz pela trombada.

            “Aqui está o seu óculos, senhorita. Me desculpe, ok? Eu estava tão distraído lendo o jornal e caminhando ao mesmo tempo, que nem percebi você.”

            “Eu é que te peço desculpas. Eu sou uma abobalhada mesmo, sempre pagando mico. É um atrás do outro, que já estou acostumada...”

            “Meu nome é Lin. Peter Marcus Lin. Policial Lin. Prazer em conhecer você.” Ele esticou suas mãos grossas e grandes em minha direção e eu hesitei em apertá-las. E continuou com elas estendidas, até que outro policial, em uma viatura distante, o chamou. Ele se despediu com uma piscadinha e foi em direção onde estava estacionada a viatura. Provavelmente, aquele outro policial que lá se encontrava, era seu parceiro. Todos na delegacia olhavam para mim. Notei que Lin sorria para mim, antes de ligar a sirene do carro e sair para patrulhar a cidade. Eu parecia uma pimenta de tão envergonhada. Eu fui falar com um atendente, mas parece que meu pai ouviu meus pensamentos.

            “Ávila? O que você está fazendo aqui, filha? Aconteceu alguma coisa?” 

            “Não... Tá tudo bem. Tem um minuto pra mim?”

            “Bem, eu estou muito ocupado, mas se você for rápida, ok? Entre, minha querida. Ruth, por favor, traga dois cafés, ok?”

            “Sim, xerife!” Falou a atendente. Entramos na sala e nos sentamos. Na mesa, milhares de documentos, fotos, registros. Ele guardou alguns papéis e fez a pose do tipo ‘Fala que eu te escuto’.

            “Eu só queria ver você mesmo. Estava com saudades.”

            “Oh, meu bebê... Eu também estou com saudades, mas você sabe quais são as responsabilidades de um xerife, não é mesmo? Eu cuido e zelo por todos nós. Apesar do pouco tempo, eu faço de tudo para que possamos estar juntos, não é verdade?”

            “É. Você está certo.”

            “Como foi o seu 1º dia de aula?”


            “Foi bom. Eu disse isso?” Nós dois rimos muito. Eu confiava muito nele e lhe contava todos os meus segredos. Ele era muito mais legal do que minha mãe e, além disso, não permitia as pirraças e mimos de Tessy. Para ele, filho tem que ser tratado do mesmo jeito: não importa a idade. Não pude conversar muito, porque ele recebeu uma ligação do prefeito e teve que sair. Apesar de ter ficado chateado por não terminarmos a nossa conversa, ele teve que ir embora, sempre se desculpando. Eu fui para a parada e fiquei esperando o ônibus chegar. 

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