Capítulo 5- A chuva- parte 2

4/11/2016 09:56:00 AM

Enquanto eu lia o livro ‘The Canterbury Tales’, um rapaz desconhecido sentou do meu lado.  Do nada, a atmosfera ao nosso redor mudou: o sol que antes irradia sua luz, de repente perdeu seu brilho, ofuscado pelas nuvens de chuva. O vento frio parecia penetrar em minha alma e rasga-la. Parecia que as cores da vida estavam se dissipando. Ele me encarou e fixou seus olhos no encarte de meu livro e eu rapidamente o fechei, guardando-o na mochila. Tudo escureceu e uma névoa espessa surgiu, dificultando a minha visão.

             “Acho que vai chover... E muito. É melhor ficar aí.” Eu me arrepiei dos pés a cabeça com sua voz hipnótica e atraente, como também assustadora e intrigante. Parecia que aquelas palavras foram sussurradas em meu ouvido, eu podia sentir seu hálito fresco e quente em meu pescoço. Do nada começou a chover. Para a minha sorte, o ônibus acabara de chegar e rapidamente entrei nele, sem sequer, dirigir algum olhar àquele desconhecido. Porém, tive a impressão de que também ele entrou no ônibus. Era como se seu cheiro estivesse espalhado em todo lugar, mas preferi não olhar para trás. Novamente meu telefone tocou e desta vez era meu pai.

            “Querida, você já está em casa?”
            “Não. Estou no ônibus, de volta pra casa. Chego já.”

            “Tudo bem... Só tome cuidado com a tempestade, ok?”

            “Não se preocupe, pai. Vou ficar bem. E você, onde está?”

            “Ainda estou com o prefeito, em uma reunião chata, mas agora foi dado um intervalo. Talvez eu não volte para a casa, já me ligaram da delegacia, ou seja, estou muito atarefado hoje. Então diga a sua mãe que amanhã eu apareço.”

            “Sim senhor!”

            “Tchau, querida.”

            “Tchau, pai.” Mal eu desliguei meu celular, ele tocou novamente. Já estava ficando estressada de tanto ouvi-lo tocar. Será que o mundo todo resolveu ligar para mim hoje? Mas para meu desencanto, não era o mundo todo que ligava para mim. Era a Tessy.

            “Você ainda vem hoje? Está demorando muito, sua mentirosa.”

            “Olha como você fala comigo. Não preciso dar satisfação de minha vida a você. Por que ligou? Só pra me ofender?”

            “Não. É que não tem energia aqui em casa. Está tudo escuro e a mãe saiu. Eu não consigo falar com ela, o celular fica mandando pra caixa de mensagem.”

            “Ah, você está com medo do escuro?”


            “Deixa de ser má e vem logo. Alô? Ávila? Você está me ouvindo? Ávila? Ávila?” Não sei bem o que aconteceu naquele momento, mas um caule grosso de uma árvore caiu em cima do ônibus. Foi um barulho horrível, eu me tremi da cabeça aos pés, pois quando a árvore caiu em cima do ônibus, o motorista perdeu o controle e batemos em uma loja. Logo em seguida, devido à chuva, o asfalto ficou muito escorregadio e o ônibus capotou. Pedaços de vidros foram arremessados para todos os lados, gritos e mais gritos de desespero. Eu bati a minha cabeça em um cano e gotas de sangue que surgiram de um corte na minha testa, pingavam em meu moletom. O vidro da minha janela estava quebrado e como eu era magrinha, consegui passar. O cobrador abriu a porta e as pessoas saíram aos pouquinhos, menos o motorista, que estava caído sobre a direção, provavelmente recebeu todo impacto da batida. Aquela cena me fez desmaiar. Uma imensa barra de ferro atravessara o corpo do pobre motorista e a luz de seus olhos desaparecera. Ele estava morto. 

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