Capítulo 6- A chuva- parte 3

4/19/2016 07:45:00 AM

A chuva diminuía. Eu pressionei um pedaço do pano sobre o meu corte, para estancar o sangue. A ambulância chegou e foi prestar atendimento a uma grávida, que estava passando mal. O médico, já havia constatado a morte do motorista. Depois de muito tempo, lembrei de ligar de volta para Tessy, mas não encontrei meu celular.

            “Por favor, doutor, eu preciso fazer uma ligação.”

            “Nada disso, você vai para o hospital, garota. Você recebeu uma pancada muito forte na cabeça e desmaiou.” O cobrador falou do outro lado da ambulância. A minha preocupação em voltar para casa era tão grande, que eu nem percebi que meus óculos tinham ‘ido para os ares’.

            “Eu estou bem, doutor. Eu só preciso fazer uma ligação bem rapidinho, por favor!”

            “Seu corte vai levar alguns pontos. Além disso, vamos fazer alguns exames em você, devido ao desmaio. Queremos ver se está tudo bem com você.” Não adiantava eu discutir com ele. Tive que entrar na ambulância e ir ao hospital. Lá o médico me examinou e pediu que eu ficasse em repouso. Depois de algum tempo, eu acordei com meu pai do meu lado.

            “Ávila, que susto você me deu!” Eu acordei meio atordoada, mas eu estava bem, quer dizer, minha cabeça parecia uma bomba prestes a explodir e a imagem da fisionomia do motorista morto, diante de meus olhos não saía de minha cabeça.

            “Sua irmã me ligou com medo porque ela estava sozinha e você ainda não tinha chegado em casa. Sua mãe tinha ido para a casa de uma colega e essa casa era um pouco longe de Coldland. Devido a chuva, o sinal do celular estava muito ruim. Mas ela chegou em casa, sã e salva e está fazendo companhia à sua irmã. Perguntei a ela se você tinha chegado, aí Tessy me disse que estava conversando com você no celular, quando ouviu um barulho terrível e você não respondeu e nem ligou de volta. Lin viu você na TV e me avisou do acidente que acontecera com um ônibus.” Alguém bateu na porta e logo foi entrando. Era o mesmo médico que estava no local do acidente.

            “Olá, seu xerife... Ela já está liberada. Tudo ok, mas ela precisa ficar em repouso.”

            “Obrigado, doutor Richard.”

            “Lembre-se mocinha: descanso!”

            “Obrigado.” Respondi. Na tentativa de me levantar, quase tropecei no meu par de tênis. Agora foi que eu percebi que estava sem meus óculos. Meu cabelo estava horrível, cheio de fios revoltos, eu parecia um espantalho.

            “Você não quer um boné?” Meu pai falou.

            “Acha que um boné vai esconder essa floresta tropical?”

            “Pelo menos uma parte dela sim. Toma o boné, guria.”

            “Obrigado, pai... Nossa, o boné do xerife!” Nós rimos, enquanto ele me conduzia até o carro. Na volta para casa, eu me recordei do momento em que aquele desconhecido falou comigo. Nossa! O desconhecido! Será que aconteceu algo com ele? Se ele realmente estivesse no ônibus, teria se ferido, desmaiado? Sei lá... Será que ele estava bem? Tive que reorganizar os meus pensamentos. Ele não estava naquele ônibus... Eu não o vi. Só senti. E sentir não significa nada. Finalmente cheguei em casa. Já era 6: 32 da manhã. Me pai insistiu para que eu repousasse, mas não estava com sono ou me sentindo cansada.  Minha mãe e Tessy ainda dormiam no sofá da sala e silenciosamente, eu e meu pai subimos à escada. Mesmo contra a minha vontade, ele me obrigou a ficar em meu quarto descansando. Ao deixar-me no quarto, meu pai pegara um cobertor e enrolara minha mãe e Tessy, que estavam mergulhas em um sono profundo. Por recomendações médicas, fiquei em repouso e não fui à escola. Meu pai queria deixar Tessy na escola, mas ela preferiu ir no ônibus estudantil. Ela nem passou no meu quarto, para ver seu estava viva... Já minha mãe, apareceu só para me dar uma bronca, aproveitando que meu pai voltara à delegacia.

            “Isso é o que acontece por ser desobediente. Eu disse que você não demorasse muito, não foi?”

            “E eu não demorei. Fui apenas na delegacia, peguei o ônibus, só que por causa da chuva, o transporte demorou muito pra chegar no terminal.”

            “Se você tivesse vindo com a Tessy, da escola direto para casa, tinha evitado tudo isso. Você me deixou com uma tremenda dor de cabeça. Se eu soubesse que filhos só vinham pro mundo para dar preocupações aos pais, eu é que nunca havia parido nenhum.” Eu não aguentei mais essa bronca desmerecida. No fundo, eu sabia que essa raiva toda dela, era porque sua estimada filhinha havia ficado sozinha no escuro e algo ruim poderia ter acontecido com ela. De um copo com água, Alexia fazia uma tremenda tempestade. Mas isso era injusto demais. Eu sei que não sou uma filha perfeita– e estou longe de ser uma filha perfeita para a senhora Alexia– mas não merecia receber broncas injustamente. Em vez de perguntar se eu estava bem ou algo desse tipo, ela vinha querer dar lição de moral.

            “Me deixe me paz! Eu já sei que não significo nada pra você. Bem que você deveria ter abortado... Assim evitaria todos os problemas que eu causo, não é?”

            “Eu não quis dizer isso, não me venha com seus dramas.”

            “Saía daqui, por favor.”

            “Tente descansar, ok? E sem dramas. Tudo que falo você leva para o lado negativo. Eu não quis...”

            “Saía.” Tudo que ela falava, soava meio irônico. Era como se minha mãe quisesse me deixar sem um pingo de paciência e depois tivesse se arrependido de seus infelizes comentários, achando que eu poderia ‘fofocar’ pro meu pai e depois ele ir reclamar com ela. Eu juro que não consigo entender o motivo de tanta raiva que ela tem de mim. Desde pequena, eu percebia isso. Às vezes, ela se nega a olhar para mim, outras vezes, ela é super legal comigo, outras, nem me faça lembrar...

            Eu não tive mais vontade de descansar. Minha cabeça tinha ativado um a bomba relógio. Fui para o banheiro e peguei dois comprimidos de paracetamol. Dois não... Achei melhor tomar três. Com o tempo, o ‘FBI e a CIA conseguiram desativar a bomba, antes que tudo fosse para os ares’. Voltei novamente para a cama e me recusei a ver o irradiante dia de hoje. Fechei a cortina, para que ocultasse a luz do dia e adormeci na escuridão daquele dia. Depois de alguns instantes, ouço alguém bater na porta.

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