Capítulo 9: O encontro- parte 2

4/26/2016 07:03:00 AM

O dia estava lindo. Acompanhei o sol nascer no horizonte. Os pássaros pareciam dizer ‘Bom dia’ para mim. Me espreguicei e tomei coragem para encarar minha família. Avistei Tessy com o seu sorriso que corria o mundo e a mamãe que descera para fazer os ovos mexidos com bacon. Ambas estranharam a minha presença na cozinha.

            “Bom dia, querida. Acordei com o seu pai me ligando. Disse que tomaria café com a gente e que tirou um dia de folga, não é bom? Você está bem, Ávila?” Calada estava, calada fiquei. Elas estavam tentando me animar, para que meu pai não percebesse e não descobrissem o que aconteceu ontem: a humilhação pela qual Tessy me fez passar na frente de Lin e a ‘super-bronca’ da mamãe. Imagine se o policial Lin contou para ele: “Nossa, xerife, sua casa parece um covil de loucas. Eram gritos e mais gritos só porque a sua filha mais velha, parecia um espantalho humano. E realmente, aquela cena foi muito engraçada.” Não, não, não! Eu seria motivo de gozação em toda Coldland.

            “Ávila, eu queria conversar com você.”

            “Não precisa, você está desculpada. Eu vou tomar café logo, tenho aula de literatura no 1º horário.”

            “Você vai à escola? Está melhor?”

            “Nunca pensei que diria isso, mas ir a escola é melhor do que ficar aqui em casa. Se eu tiver que morrer, não será aqui.” Peguei a minha comida, subi as escadas e me tranquei no quarto. Enfiei na minha mochila um sanduíche de atum e algumas frutas. Antes de sair, me certifiquei de que a janela do meu quarto estivesse bem trancada, porque hoje eu tinha planos de passar o dia com a Lili (mesmo sem ela saber que eu a incluía em meus planos de hoje). Talvez suas piadas enchessem meu mundo de cor.

            “Eu vou passar o dia na casa de uma colega.” Eu nem queria saber se minha mãe estaria de acordo ou não, se ela ficaria em casa ou não, se Tessy voltaria sozinha ou não... O importante era fugir de minha casa. “E se você puder buscar a Tessy...” Meu bobo e preocupado coração fez com que eu manifestasse tal sentença.

            “Buscar quem?” Meu pai foi chegando de mansinho e levei um susto. Quer dizer, todas nós.

            “Você vai aonde, mocinha? Está apta a sair? Sentiu alguma coisa?”

            “Está tudo bem comigo, melhor impossível. Com os cuidados e amores delas, fiquei curada logo.” Ambas perceberam o tom irônico de minhas palavras. Somente meu ingênuo pai, foi quem pensou ser verdade as palavras que pronunciei anteriormente. “Vou à escola, pai. Hoje é um dia importante. Eu apenas estava dizendo que hoje eu iria passar o dia na casa de uma colega e que eu não poderia vir junto com a Tessy para a casa. Se a mamãe puder buscá-la...”

            “Querida, esse instinto maternal vai acabar sufocando as meninas. Elas já tem consciência do que é o mundo e os seus perigos. Dê um pouco mais de liberdade à elas e que Tessy faça do jeito de Ávila: avisar com antecedência para onde vai e sempre deixar o celular ligado, para que a gente possa manter contato. Nenhuma das duas é mais criança. Já estão na idade de se separar, de andar com os seus próprios pés, sem uma ser a sombra da outra.”

            “É amor, você tem razão. Mas eu gostaria que pelo menos as duas ainda fossem juntas para a escola.”

            “Tudo bem, Alexia. Bem, o que temos para comer? Estou com uma fome de leão.” Mamãe serviu o café da manhã e Tessy subiu para pegar sua mochila, enquanto eu conversava com meu pai.

            “Soube que o policial Lin passou aqui. Como você o conheceu?”

            “No dia em que eu fui para a delegacia. Eu dei um esbarrão nele...”

            “Você poderia ter dito logo: Eu sou Ávila, em vez de quase matar o rapaz.”

            “E você é muito engraçadinho.”

            “E aí? Não vai me contar o que houve?”

            “Nada. Ele só me trouxe flores e desejou melhoras.”

            “Sua cabeça ainda dói? Você quer ir mesmo pra aula?”

            “Eu estou bem, é sério.” Com toda a agitação de ontem, misturada a terrível dor de cabeça e ao esforço que fiz, percebi que meus pontos quase se abriram, chegou até a sangrar um pouco. E para evitar qualquer dor de cabeça hoje, já havia tomado 2 comprimidos logo quando acordei. Eu sei que automedicação é crime, mas fazer o que? “Pai, em outra hora te conto algo que queira saber, ok?”

            “Ok. Boa aula pra vocês, meninas.”

A nossa vizinha, a senhora Perez, recolhia seu jornal e seu leite. Nosso outro vizinho, Tom, lavava o seu novo e brilhante carro.  Nós duas fomos até a parada em completo silêncio. Quando o ônibus chegou, por um momento, hesitei em entrar, porque ao olhar para o motorista, lembrei-me do pobre senhor que morrera naquele dia e aquilo me deixou assustada.

            “Vamos menina, entre! Não tenho o dia todo para esperar sua nave aterrissar.” Rapidamente entrei, despertando para a realidade que me esperava. Eu balancei minha cabeça para mandar embora aquela cena fantasmagórica.


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