Capítulo 3: O nascimento de Sahui- parte 2

12/10/2016 09:13:00 AM

Completamente louco, meu tio Kasuro rouba o colar que minha mãe ganhou no dia de seu casamento e foge comigo. Era a noite de seu funeral, e contudo, não pude estar perto para sentir pela última vez o toque de sua pele junto a minha... Tal noite não poderia ser menos sombria, onde na escuridão, Kasuro tentava enxergar a luz que o guiava para um lugar mais seguro.

No meio do caminho, cansado de tanto correr, ele olha para mim. Em outra ocasião, eu me perderia na imensidão de seu olhar, mas receio que não era hora de sonhos...

            “Sei que meu irmão iria te executar no amanhecer. Não posso deixar que um rosto tão bonito como o seu deixe de viver por causa de uma profecia idiota! Eu sinto que o meu dever é proteger você. Essa é minha verdadeira missão.”

Depois de muito tempo, meu tio avista um vilarejo e conhece uma anciã que tem o dom de prever acontecimentos futuros. Acredito que uma parte conspiratória o universo, coloca as pessoas certas nos momentos certos. É inexplicável. Graças aos céus, os eventos foram se encaixando perfeitamente, para que certos equívocos, aos poucos, fossem revelados:

“É você menino? Entre. Vejo que veio acompanhado... Eu posso ver uma luz que irradia de seus braços.”

Assustado, ele pergunta a anciã:

“Como você sabe quem sou? Você pertence ao Oráculo Central?”

“Eu sou apenas uma velha com dons especiais e não pertenço ao Oráculo. Apenas adivinho coisas. Ouça com atenção o que eu vou te dizer: leve esta criança até o templo da Deusa-Mãe e deixe que o destino dela seja cumprido. Você na verdade está fazendo algo que lhe custará muito caro. Saiba que nunca mais poderá voltar ao castelo, porque o rei irá mandar te executar, pois será visto como um traidor do reino de Tolios. Você deverá ficar escondido em Mashu Ihla, por 6 anos. E então, deverá voltar a Tolios e ir ao templo da Deusa-mãe onde o seu destino será cumprido e sua coragem será testada.”

Kasuro ficou receoso, mas preferiu acreditar nas palavras daquela pobre anciã. Afinal, ele não tinha escolhas a não ser acreditar cegamente em seus deuses.


Enquanto isso, é chegado a hora da minha execução e o povo estava reunido na praça central do castelo, com suas tochas brilhantes que iluminavam a escuridão que crescia intensamente na noite, como uma forma de embelezar a minha morte. Meu pai estava com o coração dividido entre amor e ódio, olhando atentamente o retrato de minha mãe, e tentava com muito esforço fechar os olhos e lembrar do meu rosto, dos traços que me faziam lembrar dela, do olhar curioso, em meio àquela atmosfera de medo. Ele não podia esconder as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

“O que eu vou fazer essa noite vai doer mais em mim do que em você, Shiara... O dia que enterrei meu coração, enterrarei minha alma também. Duas mortes... Me perdoe por matar com minhas próprias mãos nosso tesouro. Espero que ela possa viver mais feliz e que a Deusa-Mãe me perdoe por qualquer ofensa, qualquer crime que eu ou meu povo tenhamos cometido. Espero que eu esteja fazendo a coisa certa. Ela parecia ser tão inocente... Na verdade, eu não pude nem olhar direito pra ela, mas eu sei que ela se parece muito com você, meu amor. Quero que saiba que meu coração sangra pelo ato que cometerei esta noite, que a imagem da morte dela ficará cravada em meu peito, que nas noites sombrias ela será meu pesadelo, contudo o que eu estou fazendo agora deve merecer o perdão da Deusa-Mãe, porque ela também sacrificou seu filho para que o seu povo vivesse em paz, ela arrancou deste Reino, a raiz profunda do grande mal que estava para surgir, e hoje farei também o mesmo ato: acabarei com a reencarnação de Chaos.”

Meu pai caminhou junto com o sacerdote para meu quarto e ao se depararem com o berço vazio gritaram de desespero:

“Meu rei, quem pegou a menina?”, falou o sacerdote.

“Não tenho ideia, mas devemos agir o quanto antes!”

            Kasuro realmente era um menino muito corajoso. Ele desobedeceu a ordem da anciã e voltou ao castelo. Talvez ele quisesse, pela última vez, se despedir do seu irmão e de todas as pessoas que fizeram parte de sua vida. Ou, na verdade, ele era louco...

Quando o rei entrou em seu quarto, Kasuro estava brincando com a espada que seu irmão lhe dera um dia desses. Aquela recordação fez Kasuro sonhar com uma vida que passou e o fez refletir sobre o futuro de perseguições, medo, insegurança. Era nítido a imagem, em sua mente, do rei, do sacerdote, do povo de Tolios lhe acusando, chamando-o de traidor. O devaneio foi interrompido pelas palavras assombrosas de Minos:

“Irmão, por acaso você viu onde está a menina?”

“Eu só sei é que ela estava chorando de fome, mas ninguém quis se aproximar dela com medo de morrer. Eu não fui lá porque você me proibiu. O que foi que aconteceu?”

“Mallaré, chamem os guardas e mande-os vasculhar todo o castelo em busca de Sahui. Mobilize todo o Reino em busca da criança. O ritual tem que ser feito hoje!”

            Mais assombrado do que meu pai, estava o sacerdote que andava de um lado e do outro, com as mãos na cabeça.

“Meu rei, temos que nos preparar. Se não encontrarmos essa criança...”, –ele quase cuspia a palavra essa criança com um repúdio imenso– “até o final desta noite, só poderemos executá-la no próximo ano.”

Kasuro se estremeceu quando a palavra execução foi pronunciada. Ele abriu os olhos para as palavras da anciã: ‘‘O rei irá mandar te executar, pois será visto como um traidor do reino de Tolios”. Quando o rei saiu, Kasuro arrumou sua mala e foi embora em busca de um dia encontrar o seu verdadeiro destino, vagando inconscientemente pelas estradas de Tolios em busca da cidade de Mashu Ihla.

O local que em que eu estava parecia ser um lindo templo, com uma estátua muito grande de uma mulher de cabelos ruivos, com as mãos estendidas em minha direção. Nessa hora um raio luminoso me envolveu, seguido de uma grande explosão, que fez meus olhos se fecharem para a vida que eu deixara naquele lugar: adeus pai, Kasuro, povo de Tolios. Nunca mais serei o motivo de vossa desonra

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