REFLEXÓRIO DA DISCIPLINA “MITO, RITO E ESPIRITUALIDADE INDÍGENA”

12/05/2016 01:09:00 PM

PROFESSORES: Lusival A Barcellos e José Mateus do Nascimento
ALUNA: Francisca Raquel Queiroz Alves Rocha
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1º dia: 26 de setembro de 2016
Possivelmente eu chegara cedo para a aula. Ao subir as escadas e chegar à sala na qual seria ministrada a disciplina, deparei com a porta fechada. Sem nenhuma forma de saber o tempo, resolvi perguntar a uma funcionária o horário especificamente. Certificando-me que ainda era cedo (7: 30 h), decidi dar uma volta pelos corredores do Centro de Educação a fim de sondar alguns cartazes que anunciavam quitinetes e seus respectivos telefones. Deparei-me com minhas amigas Iranilza e Penha. Iranilza mostrou-me quem era o professor da disciplina. Ainda o vi de costas, com sua bolsa e sua “mala ou carrinho” com livros, materiais teóricos referenciais para a disciplina. Acompanhamos o professor Lusival como sombras. Digo assim porque sempre estávamos atrás dele. Muito amável, ele pediu que sentássemos nas cadeiras disponíveis no corredor do primeiro andar do Centro de Educação, enquanto o funcionário Filipe, munido das chaves, abria as salas. Estranhei o vai e vem do professor, e aproveitei para na “antessala” conversamos, colocarmos o papo em dia, e aos poucos, foram chegando rostos até então desconhecidos, que no final do dia de hoje, seriam tão presentes em minha vida, como se de alguma forma, todos nós já tivéssemos nos conhecido há muito tempo. Porém, começou a chamar a minha atenção os elementos que o professor sempre trazia no seu vai e vem. Logo o seu pedido para que aguardássemos para entrar na sala, fez com que “caísse a ficha”: o título da disciplina estava apontando o ritual de acolhida que estava sendo preparado diante de meus olhos, e que no primeiro momento podia ter passado despercebido. Mas não passou. Assim que tive a “autorização” para entrar, o professor me saudou com um “bom dia” e confesso que não olhei-o nos olhos. Sou uma pessoa um pouco tímida e justamente por não saber sua dinâmica ou ainda não ter alguma espécie de intimidade, preferi usar a tática de meu mundinho: responder educadamente ao seu bom dia, olhando para o chão. Não foi sinal de desprezo, mas sim de timidez mesmo. Contudo, visualizei os símbolos (o caminho, o círculo, a terra, a água, folhas, frutos, etc) expressos nos elementos no chão da sala de aula, uma espécie de universo. O que me chamou atenção especialmente foi o círculo em marrom, que me transportou a lembranças nostálgicas que futuramente seriam compartilhadas. Sentei-me abaixo do ar-condicionado devido a recuperação de um período de gripe, mas notei as cadeiras em círculos e presumi que seria aquele espaço no qual eu deveria estar ocupando. Mas me mantive afastada dele, até que o professor solicitou o meu envolvimento, onde fui orientada por um colega sobre um canto estratégico em que os ventos gélidos daquele ar-condicionado não poderiam afetar-me. Contudo, levei um susto quando o professor anunciou que estava partindo. Como assim? O que aconteceu? O que fizemos? Mas a aula nem começou? Não era blefe. Ele ameaçou deixar-nos ali sozinhos, refletindo o que nos levou a forçá-lo a tal atitude. Esta seria a primeira lição de como podemos quebrar regras que estão presentes em nossa vida e que agimos como robozinhos programados. O que estávamos fazendo ali, o motivo de nossa presença era para “assistir aula”. Simplesmente “assistir aula”. Meu Deus, então por que o professor quer ir embora? Ah! Acho que esse motivo de “assistir” talvez seja a resposta, a qual uma colega refletiu e expôs para nós. Então os dois verbos “compartilhar” e “participar” seriam aqueles que substituíram o quase eterno “assistir”. Essa “inatividade” do ato de assistir é refletido em nossas ações como profissionais, cidadãos, indivíduos, nas mais diferentes instâncias que assumimos como participantes de uma sociedade e de seus meios. Este verbo nos coloca em uma condição na qual aceitamos tudo, não questionamos, nos tornamos temerosos, repetidores de uma dinâmica que nos prejudica como seres humanos. Após entendermos o verdadeiro significado de estar presente em uma sala de aula, recordo-me que foi falado acerca do processo de preparação da aula (professor e aluno) e outras questões das quais me fugiram a mente. Digito este reflexório de hoje um pouco exausta e detalhes querem fugir. Por favor, não fujam! O que está mais vivo agora em minha memória foi que deveríamos nos apresentar para a turma. Fiz a devida apresentação de quem sou, assim como cada um em poucos minutos, falou parte de suas vivências e daquilo que é. Duas coisas que realcei em minha fala e que seriam fundamentais para mim neste dia, diz respeito à questão do resgate de nossas essências e a quebra ou desconstrução de certas posturas que assumimos diante da dinâmica de um mundo moderno, que nos força a nos enquadramos em seu ritmo. Em seguida, fomos submetidos a exercícios nos quais estavam presentes a menção de ritos que tratam de energia espiritual canalizada, equilíbrio emocional e limpeza dos pensamentos perturbadores que nos desestabilizam: foram feitos exercícios respiração, postura, captação de energia, para que pudéssemos nos conectar com nós mesmos. Só assim é que estaríamos capacitados para conectarmos com os outros. Sempre durantes tais ritos, fizemos um exercício bastante bom: o abraço! E o abraço foi deixando de ser tímido e evoluindo a um estado de que podemos sentir o outro fazendo parte da gente.
Tivemos dez minutos de intervalo... Um cafezinho com leite pago por uma amiga e alguns rápidos comentários sobre nossas primeiras impressões positivíssimas sobre o professor e sua dinâmica...
Na volta do intervalo, foi proposto a ida a um espaço (literalmente na grama), onde uma parte da natureza se faz presente nas construções que alicerçam a Universidade. Lá, executamos algumas técnicas de respiração, de reconexão, e foi pedido que escutássemos a natureza que insiste em dizer que ainda vive, diante de tanta “poluição auditiva”, da falta de percepção e sensibilidade diante da rápida dinâmica do mundo moderno, etc. Acho que o exercício de prestar atenção a tudo que está ao nosso redor, esse exercício de saímos do posicionamento de “centro do mundo” é importante para aguçar a nossa sensibilidade. Em seguida, a próxima atividade a ser realizada no máximo em dez minutos seria estar conectado a uma árvore, no qual tentaríamos ouvi-la, senti-la, transportar um pouco de sua energia, ver as marcas de sua existência, a sua utilidade... Além disso, pegaríamos algo que refletiria a algum significado daquela experiência. Assim que foi falado isto, virei e peguei uma flor que estava atrás de mim. Eu e Otávio escolhemos a mesma árvore. Ficamos ali em silêncio, na tentativa de ouvi-la e senti-la. Circulei-a, analisei-a e peguei uma lasca de seu velho e precioso caule e uma pedra que estava na proximidade da mesma. Passado este momento, dirigi-me até a sala de aula e cada um foi depositando no círculo sagrado os elementos pegos anteriormente, explicando a relação simbólica de cada um deles. Dentre os que eu tinha em mãos, escolhi a pedra e depositei-a no início do caminho do círculo sagrado para que sempre lembremos do ditado “caia sete vezes, levante-se oito”, ou seja, sempre no caminho de flores, beleza, sonhos, em busca do centro de sua existência ou autorealização/autodescoberta haverá uma ou várias pedras, e que recordemos que sempre teremos uma força ainda maior para levantarmos. Houve após esse momento, alguns esclarecimentos acerca das próximas atividades relacionadas a disciplina.
Pausa para o almoço...

Assim que recomeçou as nossas atividades, participei juntamente com meus colegas, de um rito do qual deveríamos tocar o instrumento ritualístico indígena maracá do jeito que nosso espírito sugerisse. Ao explicar sobre o que as peças do maracá significava, fora distribuído as sementes que estavam depositadas em seu interior a cada um dos participantes daquele círculo fraterno. Cada um dizia uma palavra: escolhi a humildade, pois para mim é um dos princípios mais importantes do “fazer ser humano”. Em seguida, ao colega da esquerda, o da direita munido de sua semente deveria desejar-lhes algo. Desejei serenidade para minha colega Ana. Posteriormente, alguns esclarecimentos foram fornecidos para que aflorasse a discussão sobre as três palavras que formam o título da disciplina (e que dizem respeito a ótica indígena, ponto de partida da exploração vivencial dessas palavras): mito, rito e espiritualidade. O mito foi definido como as histórias que o homem busca explicar o universo ligando-o às divindades. Muito relacionado ao mito está o rito, visto como fruto da crença particular daquele indivíduo, que no meu caso é a crença católica. Mas o rito extrapola a questão da religiosidade, pois na simples repetição de atos cotidianos dentro de um espaço de tempo, temos ali vários ritos, conforme nos fora explicado. E por fim, a espiritualidade consiste em acreditar que tudo é energia, que temos como alcançar alguma espécie de transcendente através do modo como nos tornamos pessoas melhores, independente de nossos credos. E ainda fora acrescentando informações sobre os povos indígenas que constituíram o centro de nossos estudos: os Potiguaras e os Tabajaras. A generalização da figura do índio, por meio de características estereotipadas também foi lembrado. Tais informações sempre seriam complementadas com mais profundidades por meio das leituras referenciais sobre os temas apresentados. Naquele momento foi dado uma noção da quantidade, localidade e história de ambos os grupos indígenas, dados esse que me recordo apenas que existem 20 mil índios Potiguaras vivendo em um território de 35 mil hectares no norte da Paraíba. Os Tabajaras, em uma quantidade muito menos (apenas 755) mostra-nos também as marcas das formas de repressão, perseguição, morte e preconceito. Foi falado sobre a história dos europeus e suas intenções na invasão do Brasil. Em 1501 foi ancorado uma caravela na Bahia da Traição. E é a partir daí que as perseguições aos índios paraibanos começa, fazendo suas primeiras vítimas, de muitas outras formas: a exploração dos índios que trabalhavam nas indústrias de cana-de-açúcar; posteriormente os índios foram colocados em aldeiamentos como São Miguel (Baía da Traição) e da Preguiça (Rio Tinto). Uma ordem religiosa “oferecia-lhes” a catequização. Alguns dos índios fogem para não ficarem no aldeiamento. E assim, terminou mais um dia de aula: com agradecimentos pela presença, lembretes sobre levar um objeto sagrado para a aula do professor Mateus e a leitura de um livro referencial para a participação e as trocas de conhecimentos na aula de amanhã.
bA nota da avaliação de hoje foi zero. Como assim um zero? Eu atribuía como significado a nota zero no passado a alguma falta de estudo, de entendimento ou dedicação. Contudo, pude pensar em outra simbologia que podemos atribuir ao zero neste aspecto: em uma prova, por exemplo, pode significar que dentro da dinâmica pedagógica da cobrança em sala de aula, eu, em um dado momento de minha vida, não fui bem em expressar as corretas soluções para os enigmas a serem “assinalados” nos métodos avaliativos propostos. Mas isso não significa que não aprendi... Hoje em dia, vejo o zero como algo que remota a um início de um ciclo, que deve ser iniciado corretamente, caso o objetivo não seja atingido; que nos instiga não a desistirmos, e sim, a buscar cada vez mais evoluir. Então esta nota é pela minha falta de preparo antes da aula, por eu ter vindo em um primeiro momento para “assistir aula”, por estar cheia de barreiras a serem “desconstruídas”, que me foram impostas por todos os sistemas, que nos fazem “robozinhos programados”, como eu falei anteriormente. Contudo, no final da aula, eu consegui fazer aquele resgate que a modernidade tenta roubar do ser humano a qualquer custo, e que devemos sempre lutar para que nossas essências prevaleçam independente dos julgamentos que os outros venham a fazer. Essa nota, reforço, não é algo negativo, e sim um pontapé inicial para que eu busque uma conexão com o transcendente que permanece tão perto de nós, e ao mesmo tempo, distante, pelas barreiras ou paredes que tentam nos impedir de vivenciá-los.

2º dia: 27 de setembro de 2016
Novamente chego a tempo de ter uma conversa com alguma das colegas de sala de aula, antes de entramos no recinto. Todos com quem conversei ainda estavam em estado de êxtase com a possibilidade de “quebras” que foi proporcionado a cada um de nós na aula anterior, provocando profundas reflexões em nosso jeito de “ser robozinho” também. Foi pedido pelo professor Mateus, (assim que o mesmo preparou a sala para nos acolher, e assim que adentramos naquele espaço), que depositássemos no solo sagrado os objetos sacros que trouxemos. Houve uma explicação sobre os objetos sagrados que ali estavam expostos: um representando o povo Potiguar e outro de um povo indígena do Rio Grande do Norte. Um a um, as pessoas se levantaram e depositaram velas, terços, bíblias, colares, “mandalas místicas”, dentre outros. Sendo a minha vez, assim repeti o rito: depositei meus três cartões de imagens de Anjos. Em seguida, foi pedido que cada um explicasse o valor de representatividade daquele objeto sagrado, falasse um pouco sobre si, e assinasse seu nome em uma folha, substituindo a retirada de seu objeto sagrado pelo nome. Cada elemento sagrado apresentado dizia respeito a um aspecto da nossa cultura religiosa. No meu caso, os cartões dos três Anjos- São Miguel, São Rafael e São Gabriel- são entidades sobrenaturais e místicas presentes no universo católico do qual faço parte e o significado deles em minha vida, diz respeito ao dia no qual comemora-se ou celebra-se esses três Arcanjos: 29 de setembro, de acordo com o calendário católico, que coincidentemente é o dia do meu nascimento. Eu sempre acreditei nesses seres e em suas missões de anjos-guias, presentes em nossa vida, nos direcionando em dificuldades. Posteriormente fora explicado algumas diferenças entre o que vem a ser religiosidade, esta carregada por certos preceitos, e espiritualidade, que é mais abrangente e funciona como um canal de comunicação com o transcendente.
Após essa explicação fomos indagados por uma questão: Qual é o seu mito? A resposta está vinculada a uma reflexão daqueles objetos que trouxemos e seus respectivos significados que dizem respeito também a linha tênue dos mitos e realidades que contribuem para dar sentido a nossa vida, como fora dito pelo professor Mateus: “Mito e realidade apresentam uma interdependência que se sustenta desde o início da humanidade, que apresenta-se em diferentes formas na realidade. A mitologia grega sistematizou os mitos, mas devemos ver os mitos como os primordiais para termos ideia de outros aspectos ou modelos de mitos”. Falou-se que nos textos escritos há também representações da realidade, seja pela “estratégia” da repetição como elemento associativo da memória em relação aos mitos. Contudo, a base oral não permite a unidade da escrita, pois um exemplo seria o final da mesma história que é diferenciada em outras formas de representatividade. Então o mito se materializa na realidade, pois o mito não é uma “estória” e sim “História” que liga-se as discussões sobre a origem da humanidade, com a finalidade de responder as perguntas mais curiosas e enigmáticas acerca de nossa origem, o que estamos fazendo aqui, qual nossa missão, e o que acontece no pós-morte, por exemplo. Fala-se tanto em mito... E qual seria a sua diferença em relação a mitologia? Ambos se divergem ou convergem? Foi dito que o “mito se sustenta por si só e a mitologia seria o estudo do mito”. Segundo citação de Eliade dita na aula “o mito não está só na mitologia grega (...) Ele foi oriundo bem antes da escrita”, e possui a finalidade de evitar a falha da memória coletiva de um povo ou numa tentativa de unificar a sua história. Mas a memória coletiva, muito antes da escrita, era formada por pinturas e a própria oralidade que permitia a perpetuação do fazer “História”. Sobre essa “História”, ela sempre existiu na produção humana, segundo o debate que tivemos, enquanto que a historicidade está na invenção da escrita, como uma forma de escrever “História e estórias”. Enfatizando essas questões, foi a vez de sermos apresentados as definições sobre os três tipos de mitos: os que explicam o passado (cosmogônico), o presente e o futuro (escatológico). No período da tarde “destrincharíamos” mais acerca deste ponto, já que estava na horado intervalo para o almoço.
Voltando às 14 horas para a sala de aula, fomos pego de surpresa com uma pergunta que seria o pontapé inicial para discutirmos e entendermos sobre os mitos: “O que penso do meu futuro?” Com os nomes assinados nos papéis e dispostos agora na lousa, tínhamos a nossa dupla. Nesta atividade, meu parceiro foi Otávio: pensamos em duas respostas referente a um futuro curto e um mais longo: o meu colega no futuro curto gostaria de ser doutor, concluir seu curso, e a longo prazo, ter uma boa carreira acadêmica e assim, poder realizar seus sonhos. No meu caso, a curto prazo gostaria de finalizar o meu mestrado e a longo, passar em um concurso e consequentemente, investir em minha arte como escritora, de forma a contribuir com meus escritos no mundo literário e na sociedade. Terminado esta dinâmica, foi dito que o mito é uma perspectiva de construir o futuro, de dar sentido a nossa existência, refletindo em nossas projeções ou ações, em nossas premeditações, mesmo sem ter certeza se o que desejamos vai acontecer ou não. O conceito de mito de origem foi explanado, mas eu tinha uma curiosidade, antes de nos aprofundarmos nesse tema: qual seria a diferença entre mito e lenda? A marca que afirma algo como mito está ligado ao seu caráter de sagrado, aos ritos e símbolos, pois ele é princípio da crença, dentre outros conceitos já expostos anteriormente. Sobre a lenda, esta narrativa pode em sua essência ter um caráter de moral baseado em fenômenos sociais e culturais. Com essa distinção foi definido que os mitos relacionados a cosmogonia são reatualizados. Sobre os mitos escatológicos que abordam o futuro, no livro de Eliade, é dito que o povo hebreu utilizou-se dos mitos como uma perspectiva para entender o apocalipse, que seria um fim no qual inaugura um novo começo, uma nova etapa evolutiva onde alcançaríamos a imortalidade. Por fim, foi perguntado: O que essa aula e a disciplina como um todo estaria nos ajudando no objeto de pesquisa... No meu caso, especialmente sobre as definições e o mundo dos mitos, esse conhecimento serviu para que eu pudesse entender as histórias e participações mitológicas da personagem Lilith, meu objeto de pesquisa, cujo o trabalho, por meio de um estudo intersemiótico, pretende abordar a construção, desconstrução e reconstrução do símbolo de Lilith através de um viés religioso (que entrariam os seus mitos nos mais diversos aspectos culturais/históricos/religiosos) e literário, afim de que entendamos as diferenças e semelhanças que permitem a convergência e transformações desta personagem desde a antiguidade, até os ideias modernos aos quais estão vinculados sua imagem. Para finalizar a aula, antes de nos abraçarmos como todo, o professor sugeriu que escolhêssemos um símbolo que nos representava naquele momento: ao passar o baú, com os mais diversos desenhos destes símbolos, deparei-me com a lua, logo escolhida por mim. Na explicação sobre a escolha, relacionei-a com a questão do meu romantismo, de acreditar que a lua é uma eterna observadora dos amantes, que a lua inspira-nos (a mim especialmente); gosto da lua porque também sou muito apaixonada pela imagem de Nossa Senhora do Apocalipse, que contém uma lua debaixo de seus pés, e acho uma das mias bonitas representações católicas da virgem Maria, e por fim, alio a lua ao meu objeto de pesquisa: Lilih é vista como a lua negra. Não posso deixar de dizer que no final da aula, tivemos um abraço como todo. Nos envolvemos em um círculo, sentido a energia de cada um fluir, e lembrando que todos somos um. O professor Mateus conduziu de forma exemplar a aula, com uma metodologia perfeita, onde também proporcionou a participação de todos.
A nota da avaliação de hoje foi sete. Senti-me bastante familiar com o texto, pois já havia tido algum contato com os apontamentos apresentados em outros livros sobre o tema.

3º dia: 28 de setembro de 2016
            Expresso-me através de versinhos poéticos este reflexório, dividido em três partes: uma que significa o rito do abraço, como uma forma de acolhida e conexão com o outro; depois sobre o que seria identidade, já que foi um forte ponto levantado por um colega, acerca da suposta perda da identidade indígena visto a absorção das culturas ou modernidade, e senti-me instigada a escrever sobre isso; tivemos um ritual desenvolvido pelo colega Anderson, levado por sua curiosidade de descobrir sobre o que era e o que significava os objetos depositados no solo sagrado deste dia.

Parte 1: Introdução ao rito

Peça licença aos espíritos
Entre em transe sem medo
Concentre-se em encontrar
A única verdade que cresce fora de ti
Uma raiz desconhecida e preciosa
Mantendo-o ainda em pé, dia após dia... Abrace-a!


Todos somos um

Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro

Ao redor de mãos tocáveis, você encontra a essência humana
Fora de controle das máquinas danificadas
Da modernidade que honra a corrida do tempo
Ausente de sensibilidade, somos programados

Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro

Nunca deixe que a legião domine a sua luz
Seja o centro do próprio universo a crer
Todos somos um nesse abraço mútuo
E se ausentes da espiritualidade, somos desvairados

Por que não devo estar junto a ti?
Por que não há respostas que possam permanecer ocultas?
O divino está no templo de seu corpo
Erga o palácio mais belo de ações e não palavras

Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro

Comande a extensão de seu nirvana e introduza
Mais amor neste mundo já corrompido
Uma

Nós somos a árvore da vida
Nós somos a árvore do tempo

“Não tema, eu posso entregar a chave e libertá-lo da corrente,
E posso condená-lo a danação, uma escolha tentadora?
Eu sou aquilo que você não pode ver
Mas sente todos os dias a perturbação
Me chamam por vários nomes
Já escolhestes o seu?”

-Eu sou a mais pura energia a duelar com o caos em mim
Este é o teu nome
Eu estou liberta de meus medos neste abraço
E busco o véu da eternidade

Em círculos dispostos
Energias desejam flutuar em meu universo
Permitimos enxergar a alma alheia
Através de olhos flamejantes
Busque a si mesmo no outro



Parte 2- O outro como alter ego

Olá! Eu ainda estou aqui
Olhando
Sorrindo
Esperando
Rezando
Chorando
Mutilando
Vivendo
Crescendo
Morrendo

Quando vai notar a minha existência?
Negar não é esquecer
Você adoece
O corpo
A alma

Toc, toc
Nenhum espírito por trás desta porta?

Mudando os traços da metamorfose
Não há uma borboleta dourada em mim
Somente o outro como alter ego
A negação da afirmação de sua identidade,
Ou a reformulação de sua existência?


Parte 3-A semente

Uma urna mágica passada
De mão em mão a pura energia
Eu penso e canalizo
Meus pedidos distantes
E fico esperando o agora
Fazer acontecer o que eu sei
Eu tenho o poder
De acreditar em algo a mais

Eu planto e colho
Amor e dor
Mas deixe ir o que prende
O pássaro de alcançar o alto céu

Sobreviva e resista
Acredite na semente
Faça um pedido
E em seu coração
Deposite a semente.


Terra

Mãe de cachos negros sobre o véu rubro de nossas lágrimas
Alcançaremos o perdão de nosso imperdoável crime contra ti?
Tantas demagogias e diferenças fizeram amigos se converterem em inimigos
Não há religião melhor do que a do amor
Redenção ou punição, minha Mãe?
Pois ferimos inocentes
Pois ferimos inocentes!

Mãe, cujo o leite para alimentarmos tornou-se o mais puro veneno
Alcançaremos o limite da consciência em outra era?
Tantas tecnologias no avanço de nosso próprio apocalipse
Não há mais sinal da Mãe-Terra aqui?
Eu nunca desejei ardentemente o recomeço
Pois ferimos inocentes
Pois ferimos inocentes!

A Terra é a conexão individual do complexo nervo coletivo!

A nota da avaliação de hoje foi nove, pois estou cada vez mais participativa em sala de aula, contribuindo com os meus pensamentos expressos na fala, para que mais um conhecimento seja compartilhado aos meus demais colegas de classe, e até como a forma na qual escolhi fazer o reflexório do dia de hoje, acrescentando uma prática literária na qual expresso o máximo de minha sensibilidade.

4º dia: 29 de setembro de 2016
Hoje é o dia do meu aniversário de 30 anos e com certeza visitar pela primeira vez na vida duas aldeias indígenas seria parte de um momento único e mágico em minha vida. Assim que acordo, vejo em minha cama um presente: um livro chamado “A sombra de Allan Poe”, um romance sobre a morte misteriosa de um escritor que me inspira: Edgar Allan Poe. Estou certa de que hoje tem tudo para ser um dia incrível. Lembro-me de ler algo sobre a história dos Tabajaras, já que não possuía nenhum contato com a história da Paraíba em geral, e especificamente dos Tabajaras ou Potiguaras. Finalizado a leitura, dirijo-me ao Mercadinho a fim de comprar o alimento que seria compartilhado na nossa janta na aldeia. Feito a compra, retorno ao apartamento e literalmente arrumo minhas malas para a nossa viagem à aldeia no período da tarde, cheia de ansiedade em relação às experiências que vivenciaríamos naquele curto espaço de tempo, mas que se eternizariam. A turma desta disciplina tinha criado um vinculo afetivo muito grande e inegável. Reforço que em um espaço de quase cinco dias de aula, parecia que nos conhecíamos de uma outra vida. Cada um podia se expressar livremente, sem medo de ser repreendido ou ridicularizado, contribuindo na construção do saber. Cheguei na praça do CE por volta das 13:30 h e encontrei-me com minhas colegas que parabenizam-me. Não pude deixar de ficar surpresa e sem palavras diante de tanto carinho recebido. Fiquei até sem jeito, pensando que não era merecedora de tudo aquilo que as meninas trouxeram (e que arquitetavam ainda mais). Algumas delas me presentearam e outras, só a presença e os votos de felicidade que fizeram a mim, foram essenciais para ampliar o meu momento de felicidade. Nos dirigimos a van, já que estava na hora de partir, contudo confesso que meu coração estava na mão ainda...
O clima não poderia deixar de ser eufórico acerca do que nos aguardava. Já na van, o professor Lusival contou sobre a história dos Tabajaras, e confesso que nunca imaginei uma história tão sofrida, de negação e recuperação de sua identidade e da luta pelo direito a terra. Estava atenta a explicação, mas também dediquei um olhar para o trajeto ao qual fazíamos. Passado um determinado tempo (acho que era umas 14: 40 h), chegamos ao nosso primeiro destino: a Aldeia de Gramame. O espaço era simples, mas acolhedor. Todos já estavam ali, nos aguardando. Sentei-me numa posição ao qual poderia visualizar os membros daquela comunidade por completo. Logo me muni da caneta e do caderno, cujo os primeiros rabiscos da fala do cacique Carlinhos Tabajara, representante daquele grupo, seriam anotados. Carlinhos explica que a origem de seu nome diz respeito a um nome histórico de guerreiro arapuã. Assim que finalizou sua apresentação, solicitou-nos que também fizemos a devida apresentação para que ele pudesse nos conhecer. Assim, disse meu nome, o curso ao qual pertencia e a emoção pela qual estava sentido por estar pela primeira vez em uma aldeia indígena.
Foto: Índios da Aldeia do Gramame reunidos
Fonte: Raquel Alves, 2016.

Em seguida, após nossa apresentação, é iniciado um ritual de pedir licença ao deus Tupã, aos seus antepassados para realizar a sua reunião, nos incluindo nesse momento. Com uma espécie de cachimbo, e dando “baforadas” no ar, Carlinhos percorre aquele círculo, nos encarando nos olhos, até que no centro de um tronco, que sustenta o espaço no qual nos encontrávamos, dá uma baforada maior em um círculo, que funciona ao meu ver, como um portal de comunicação com o mundo espiritual, do qual adquire o consentimento para que a reunião realmente comece. E logo no início desta, não podia deixar de lembrar com nostalgia e dor aqueles aos quais não tiveram a oportunidade de estar aqui conosco “e foram embora para outra vida com sede de direito”. Ele afirma que sua missão é realizar feitos em prol da coletividade, sem desejos de ambição, apenas lutando pelo o que é de direito do povo.
Durante a história dessa comunidade, que passou 150 anos sem saber de sua origem, 10 anos atrás começou o chamamento e a luta pelo reconhecimento como índios Tabajaras e assumir sua identidade, sem medo de represálias. Muitos deles vivem ainda nas periferias da cidade de João Pessoa, perdidos na marginalidade, sem oportunidade ou condições dignas de sobrevivência. Outros, envolvidos nesse mundo sombrio das drogas e violência, perderam suas vidas, sem terem a oportunidade de se libertar das correntes da opressão.
Naquela reunião, Carlinhos Tabajara dividiu-a em temas, de forma sábia, com a finalidade de abranger nossa curiosidade, mesmo em um curto espaço de tempo no qual teríamos que permanecer naquele recinto. O primeiro tema foi sobre a terra. Atualmente, os índios da aldeia do cacique Carlinhos vivem nas terras que guardam lembranças de muito sofrimento: lá fora a fazenda na qual alguns Tabajaras foram escravos em sua própria Terra. “Fomos muito judiados e com medo de assumir quem a gente era”, disse o cacique, pois naquela época, assim que descobriam que tal pessoa era da etnia indígena, aquele ser era brutalmente morto nas mãos do homem opressor, representado pela família Lundgren. Os Tabajaras anseiam por uma demarcação de terras a fim de que possam sobreviver dignamente, direito esse tão reforçado na constituição e que na prática não condiz com a realidade de um país, onde a concentração de renda e territorial, muitas vezes, é má distribuída. “Antes de morrer, eu quero deixar o meu povo vivendo na terra harmonicamente, com sua cultura, com sua liberdade e sendo feliz”, além e lembrar que “Terra de índio, nem se vende, nem se troca”, foram as palavras proferidas pelo representante daquela aldeia, que acrescenta a dívida que a cidade de João Pessoa tem com o cacique Piragibe, que nas palavras proferidas por aquele líder, teria sido um colaborar presente na época de surgimento da cidade de João Pessoa.
Sobre a história de seu povo, segundo tema, esta é marcada também por uma disputa com o povo Potiguara, outra etnia indígena em João Pessoa, na qual tal estranheza que originou a disputa foi incentivada pelos portugueses que aqui chegaram. Contudo, quando o sofrimento de ambos os povos foram focalizados nas artimanhas dos portugueses, o posicionamento daqueles povos distintos foi de unir forças diante de um objetivo em comum: lutar contra o homem branco, que em cada toque seu, destruía a terra, a cultura e escravizava os povos indígenas ou não. Hoje em dia, Potiguaras e Tabajaras estão de mãos unidas, enfrentando as adversidades que ainda persistem não só em relação ao povo indígena, mas em todos aqueles no qual o princípio de identidade, alteridade e pertencimento é questionado.
Fomos introduzidos ao próximo tema: a cultura, que envolvia o aspecto de espiritualidade e de alguns de seus ritos que envolvem a entidade máxima que é a Mãe-Terra e o principal (e o mais aguardo por mim) o Toré. Antes de falar sobre tal ritual, o cacique Carlinhos narra o processo de composição das músicas que estão presentes no Toré: “Cada música nossa é um pedido (...) O tema é louvar a Mãe-Terra”.  Muitas vezes, é na conexão com o além, por meios de seus antepassados, que vem a inspiração das letras e melodias das músicas que iram compor o Toré. Outras vezes, o silêncio parece propiciar o equilíbrio de pensamentos e o contato com a natureza, expressando um canal imprescindível para que se alcance a sensibilidade necessária para captar as palavras certas na ocasião em que estão prestes a compor o louvor para o próximo Toré. Em certas ocasiões, o cacique nos lembra que a mesma inspiração que incita uma música pode levá-la embora do mesmo jeito, que “se não anotar, esquece”. É recordado que, o estado de espírito de quem oferece-se como tabernáculo para a conexão com os ancestrais para receber orientações sobre a música a ser composta, é fundamental: “É preciso estar limpo de pensamentos, limpo o coração e mente” para que se alcance esse objetivo.
Entendemos que a Mãe-Terra ou a Natureza é a divindade máxima, que cuida de todos do nascimento à morte. “O tempo que dá é o tempo que tira: é assim que a natureza divina trabalha”, diz cacique Carlinhos. Como divindade aliada ao espaço de convívio entre eles, é reforçado “o grande pecado de vender a nossa própria Mãe”, em relação aos proprietários que se apoderam de espaços e os vendem mesmo não sendo os donos efetivos, ou usando de má fé para lucrar em seus negócios com a terra. Mesmo na utilização de elementos da Mãe-Terra para o bem estar e sobrevivência indígena, é pedido a sua permissão, por exemplo, para cortar um pé de árvore que servirá como parte da construção de sua casa. Em seguida, é apresentado alguns dos instrumentos do toré e as armas: a buduna, é o pau no qual o cacique Carlinhos está segurando, que funciona como uma forma identificatória de liderança, uma demarcação de hierarquia no sentido de mostrar quem é autoridade daquele povo, quem responde por aquele povo; já o maracá é um instrumento musical que, nas palavras do líder da Aldeia de Gramame, “quando balançado é para reivindicar nosso direito”. É claro que essas definições são apenas uma, diante da infinidade de significados que cada membro do grupo pode atribuir a dado objeto/instrumento. Foi explicado o significado das cores preto e vermelho no contexto daquele grupo: a primeira diz respeito a lembrar de sempre lutar por seus direitos, independentes da barreiras/dificuldade; e a segunda cor, significa a cor da guerra, o sangue.
Foto: Cacique Carlinhos da Aldeia de Gramame
Fonte: Raquel Alves, 2016.

Cacique Carlinhos fala que é preciso estar atento a evolução do tempo, (“termo correto, porque o desenvolvimento tira direitos”, em suas palavras) e mesmo, eles tem que saber como aliar e separar em dados momentos, a tecnologia. Essa evolução, consequentemente, não indicaria o esquecimento de sua origem, conforme fora bem lembrado. Mesmo sabendo de remédios naturais, por exemplo, há a necessidade de comprar em farmácias; a busca por graduações ou conhecimentos, dentre outras não indica uma perda da identidade indígena, e sim uma condição de mesclamento de culturas, na qual o indígena também firma o seu lugar na sociedade. As lutas para se fazerem presentes nas instâncias da modernidade, dizem respeito ao processo de reconhecimento, que todos nós buscamos, como bem lembra o cacique. Esse conhecimento adquirido também é uma forma de ser repassado como cultura para as demais gerações de seu povo e não deve ser desprezado também, pois faz parte da evolução, conscientes que “a gente nunca aprende tudo”, afirmando humildemente a sua condição de eterno aprendiz da vida.
Sobre o tema sobre a lei indígena. A revolta alimentada não só pelo Carlinhos Tabajara, é sobre a PEC 215, que seria uma forma de “rasgar” os direitos que assistem a constituição de 1988, e que prejudicaria ainda mais o povo indígena, que vive ainda tão escondido no véu do tempo e da modernidade de nossos tempos, no que diz respeito a valer os seus direitos básicos.
Havendo, pois, uma quebra dos temas, Carlinhos volta para o tema de tradição ou cultura dos Tabajaras, quando começa a falar sobre casamento e os rituais que o precedem, reforçando que mesmo nos primórdios, quando “os índios andavam nus”, de acordo com a visão apresentada em vários livros de história, mesmo “nus”, cada um olhava para o outro com respeito, pois viam-se vestidos e revestidos de valores morais, os quais, sabemos que não condiziam com os valores de nossos exploradores, os colonizadores portugueses. Especialmente na tradição Tabajara, havia um teste a ser feito pelo homem que desejasse casar com determinada moça. Esse teste, além de provar que tal sujeito era merecedor, admitia que ele podia ser um grande líder em um futuro próximo, que garantiria a perpetuação da tradição daquele povo. Segundo Carlinhos, o jovem disparava uma flecha, que ao fazer a devida curva, devia cair de frente ao dedo grande do pé do indivíduo. A simbologia por trás deste teste determinava que além de um bom atirador, tal sujeito seria um possível bom líder. Depois de realizado o casamento, no qual, a moça aguardara reclusa que o jovem “noivo” fosse vencedor, o casal deixaria a aldeia juntamente com um grupo de indivíduos, que os seguiriam rumo a uma nova vida.
Em seguida, retoma ao tema sobre “cantar Toré”. Antes de nos introduzir aos cantos do Toré, ele nos saúda como “indigenistas”, ou seja, nas palavras do cacique “o povo que gosta do índio sem mau pensamento”, ou seja, sem estereótipos. Agora, com um número pequeno, mas interativo de pessoas, com suas respectivas caracterizações e instrumentos é iniciado o “canto do Toré” e sua dança ao redor de um círculo menor, delimitado pela presença de seus corpos. Sua dança situava-se ao redor que compreendia o grande tronco que sustentava a estrutura que nos acolhia. Extrai alguns trechos de suas cantigas: “É Deus no céu e Índio na Terra/ Vamos ver quem pode mais!”; “Na aldeia dos Tabajaras/ Tem o reino dos Encantados”; “Tabajara é guerreiro/ Tabajara é quem vai guerrear/ Guerreia na Terra/ Guerreia no Mar”; “Vamos meu irmão/ Que uma noite não é nada/ Quem chegou foi Tabajara/ No romper da madrugada”; “Desenrola essa corrente/ E deixa o índio trabalhar/ Quem deu esse nó, não sabe dar”. Nesse momento, o líder da aldeia, pega na mão de cada um, no gesto de saudar-nos novamente, olhando em nossos olhos e o professor agradece por todo aquele conhecimento, do qual nos foi permitido beber da fonte por um breve momento. Aplaudimos, excitados pela experiência, e tiramos algumas fotos. E por fim, foi distribuído algumas roupas, alimentos e brinquedos.
Nos dirigimos agora à van, pois havia mais estrada a seguir em direção a próxima aldeia: a de Vitória, também no município do Conde. Não pude ir na van, já que não poderia ir alguém em pé por causa da fiscalização, então cedi meu espaço para o professor, e fui com o Otávio e a Michele, no carro de uma professora da UFPB do campus de Mamanguape. Conversávamos sobre as impressões ainda frescas, desta primeira visita e ansiosos pelo próximo momento: o contato com a referida aldeia já citada.
Não sei exatamente que horas era. Estávamos em mais um solo Tabajara. A Aldeia da Vitória era um espaço maior, “mais agraciado” em termos de estrutura, mas que não me passou um momento de espiritualidade tão profundo (no bom sentido, não que aquele lugar seja desprovido de espiritualidade, mas no sentido de me fazer sentir arrepios), tal qual pude sentir na primeira aldeia. Contudo também foi um momento especial. Jovens estavam sentados, uns pintando os outros como uma tinta artesanal de jenipapo, que durava entre 10 ou 15 dias. Fiquei tentada por ser pintada. Gostaria de ter tido coragem e ter me submetido a “sessão de pinturas”, contudo, sentei-me e aguardei a chegada do cacique daquela comunidade: Ednaldo, o famoso Tabajara de uma lenda profética, que aborda um aspecto que não deixa de estar inserido no meio cosmológico de tal cultura.

A saudação inicial do cacique foi #ForaTemer, o que mostrou o seu posicionamento e articulação no mundo político, no bom sentido. Ele pediu que cada um se apresentasse, antes de contar um pouco de sua história. Novamente, falei meu nome e o curso ao qual pertencia, agradecendo pela oportunidade de estar em sua companhia.
Antes de apresentar sobre sua origem, foi feito um rápido panorama da história dos Tabajaras, que são originários muito além das localidades que abrangem o Rio São Francisco. Por volta de 1573, aconteceu o primeiro encontro/choque com o povo português, que chegara no Nordeste. Os Tabajaras fizeram uma aliança com os portugueses, que o aprisionaram. No século XV houve uma guerra ou revolta, no qual ambos os lados tiveram mortes e consequentemente, uma perda considerável de seus povos. Aqueles Tabajaras sobreviventes fogem pelo Rio Paraíba e encontram-se com o povo Potiguara. Aliam-se e atacam o forte de Itamaracá. Houve uma briga interna, que fez com que os povos Tabajaras e Potiguaras se separassem e delimitassem seus territórios. Novamente, os dois povos juntam força contra os portugueses, em mais uma revolta. Por volta de 2000 Tabajaras foram mortos nesse momento. Como se não bastasse, a família de Frederico Lundgren submeteu os índios em um processo de exploração, tortura e morte, especialmente aqueles que eram identificados como indígenas. Eles eram obrigados a negar sua origem e se assumirem como “caboclos”, caso desejasse sobreviver a ira da família “fascista” que reinava no viés econômico local.
Resumidamente a história do Cacique Ednaldo é o abandono de um sonho, e a busca por outro. Antigos membros da comunidade Tabajara haviam profetizado que um jovem viria reivindicar suas origens e assim unir o povo Tabajara que encontrava-se nas sombras, devido aos 150 anos silenciados, e agora os Tabajaras lutam por seu reconhecimento, que só foi possível quando o cacique Ednaldo teve contato com a profecia: ele deixaria de ser jogador de futebol para lutar pelo direito a voz de seu povo. Tudo começa em 1920, no Sítio dos Caboclos e do Bode, foi o local onde nascera os avós de alguns dos membros da Aldeia de Vitória. O tio de Carlinhos da Barra profetizou que apareceria um jovem que faria ressurgir os direitos dos Tabajaras. Depois de 50 anos nasceu o Ednaldo. O pai do cacique se mudara para Maceió e ele ficou lá, mesmo quando seu pai decide voltar para a Paraíba. Logo seu esforço dedicado a sua paixão pelo o futebol, fez com que uma seleção portuguesa fizesse uma proposta tentadora, assim que passou no teste de tal seleção estrangeira.
Quando tomou conhecimento desta história, e por meio de seu tio que insistentemente o identificou como aquele jovem da profecia, em sua mente, ele sentiu-se chamado a realizar tal feito. Em 21 de junho de 2006, o jovem Ednaldo saiu em busca de uma documentação histórica que atestasse suas palavras, e isso durou um ano. “A palavra de um homem não vale nada, tem que ser documentado”, diz o cacique. Agora, segundo expressa o próprio cacique era “o ano de juntar força com outros parceiros para descobrir onde estava o povo Tabajara”. A comunicação boca-a-boca na finalidade de espalhar que a profecia de fato estava acontecendo, fez com que emergisse cada vez mais o povo vivido nas sombras. E aquele que chegava em dúvida quanto a sua identidade, era indagado por Ednaldo da seguinte forma: “Quem é você? Você é índio! (...) Eu sou o que você não conhece de sua história!” Não poderia deixar de ser diferente o choque. Possivelmente na mente daqueles que eram chamados a se assumir como índio, o pensamento de agora era: “Eu posso dizer quem eu sou realmente?”. Era notável que ainda era traumatizante assumir-se devido às experiências de outrora, que habitam o imaginário real da vivência de muitos desses indivíduos, que agora viviam nas periferias de João Pessoa, a mercê de outras formas de escravidão como a violência e as drogas, como fora relatado anteriormente pelo cacique Carlinhos. Agora a luta por uma terra que era sua e que lhe fora roubada, seria o próximo passo para o povo Tabajara.
Outro sonho também do cacique Ednaldo e com certeza de todos os indígenas Tabajaras, é que sua História fosse conhecida não só em toda Paraíba, mas no Brasil e no mundo, como sinônimo de resistência e de esperança. Alguns livros inéditos foram lançados por professores e pesquisadores que mantiveram e mantém contato até hoje com os Tabajaras, que abordam várias temáticas de sua cultura, se tornando referencial primordial quando se trata do estudo apurado, conciso e real da história do povo Tabajara. O cacique Ednaldo aponta-nos para uma mesa improvisada, na qual estão dispostos os livros em questão e artesanatos de sua comunidade.
Sendo indagado por alguns de nossos colegas que estavam curiosos acerca de algumas questões que envolvem política, educação, saúde, cultura, religião, o cacique e um jovem em especial responderam a esses questionamentos. O cacique reforça que há ainda muita luta, especialmente sobre a terra, vista que aquela na qual vivem foi uma doação da fábrica, que só foi aceita pelo mesmo, para que fosse evitado novas brigas e fragmentasse ainda mais o povo Tabajara que estava reunido após dez anos de buscas. Essa luta pela terra, de certa forma, pode remeter ao que ele mesmo enfatizou: “A Terra Prometida é o sonho do povo Tabajara que enfrentou dificuldades”, diz o líder da Aldeia de Vitória. Além disso, faltam políticas públicas, falta o colégio indígena, e o reconhecimento do povo paraibano, que ainda está cheio de uma ótica estereotipada.
Sobre o Toré, também muito aguardado por mim e por meus colegas presentes, o cacique disse que só “dançava” quando estava feliz, com problema, ou quando sentia em sintonia com uma espécie de energia da turma que o visitara. Por fim, ele agradece nossa visita, visto que não tínhamos mais perguntas a serem feitas. Fomos comprar algumas peças do artesanato local e compartilhar do lanche que trouxemos, além de tirar fotos (que estarão inclusas no artigo final da disciplina, além de detalhes bibliográficos mais profundos da história do povo Tabajara). Posteriormente, voltamos para a Universidade Federal da Paraíba, conversando sobre algumas de nossas impressões (que seriam mais detalhadas na aula de amanhã) e também pedindo a quem descesse nas paradas antes de chegar na UFPB, que trouxesse um lanche para o café da manhã, como uma forma de brincadeira. Tenho certeza de que este dia (bem, esta noite) não poderia ter sido tão mágico como fora.
A nota da avaliação de hoje foi dez, pois senti uma euforia pelo momento especial de hoje (meus 30 anos), pelas pessoas com quem convivia (colegas, professor), pela experiência cheia de boas expectativas sobre visitar uma aldeia indígena, e sobre a oportunidade de conhecer a História deles, por meio de vozes inaudíveis em dados tempos, que agora ressoam em nossas mentes.

5º dia: 30 de setembro de 2016
            Cheguei um pouco atrasada na aula de hoje. Assim que entrei, todos estavam em círculos. Foi pedido que quem quisesse, manifesta-se alguma dinâmica na qual envolvesse a espiritualidade, como foi apresentado em seguida: variados tipos de cumprimentos/saudações em diferentes partes do mundo; a do balão ligado aos nossos sonhos; diferentes tipos de abraços e mais outra que não me recordo. Eu notei certa evolução na minha forma de abraçar, visto que eu já tinha falado anteriormente que eu tinha vergonha e timidez de manifestar tal gesto, mas na dinâmica do balão, houve um travamento, inerente a minha incapacidade de encher uma bola (isso me acompanha desde a infância, eu ainda não aprendi a evoluir neste aspecto). Contudo, foram dinâmicas bacanas. Em seguida, foi pedido que apresentássemos o nosso posicionamento diante das impressões pessoais sobre a visita nas duas aldeias do povo Tabajara, onde cada um foi colocando as suas visões baseado em prós e contras, revelando até detalhes jamais ditos, como a questão de que no ritual do Toré, na composição de suas músicas, o cacique Carlinhos afirmou que estar puro e limpo diz respeito também a ausência do sexo, o que deixou-nos chocados com aquela revelação somente a um membro do grupo. Possivelmente houve alguma espécie de barreira ou travamento imposta indiretamente por nós, que impossibilitou que Carlinhos se sentisse a vontade para manifestar tal compartilhamento de informação, segundo as palavras do professor Lusival.
Foi perguntado acerca dos nossos ritos, onde cada um expressou o seu. Consequentemente o meu, tem relação com o mundo católico do qual faço parte. Foi feito um balanço da disciplina e do professor, que humildemente aceitou sugestões para uma próxima vez em que ministrar tal disciplina, na qual, foi pedido a antecipação do e-mail com as referências para que as leituras fossem feitas antes da aula, como uma forma de maior interação diante dos temas e assuntos discutidos.
O professor presenteou-me com um livro, referência para o artigo final, o que me deixou bastante feliz por ter sido agraciada com tal conhecimento que este livro irá proporcionar-me, não só como objeto de reflexão para a composição do artigo, mas como um contato direto com uma cultura tão rica como as dos indígenas. Além disso, o professor pediu que uma colega dissesse um número de 1 a 18. Escolhendo o número 18, foi a vez de Aldenir receber um exemplar de outro livro voltado a temática indígena, o que deixou-a bastante feliz também.
E o que mais me marcou foi a surpresa que estava sendo preparada na sala ao lado. Não pelo parabéns em cantoria, bolo, refrigerante e sim a presença de todos em um voto sincero de paz, amor e felicidade para com a minha pessoa. Não poderia antes de apagar a velinha que simbolizava 30 anos de vida, fazer um desejo coletivo: que todos nós conseguíssemos realizar nossos sonhos.

A nota da avaliação de hoje foi dez. Encerramos um ciclo mais convicto em nossa missão, que se estende aos birôs como pesquisador ou cientista, mas sim de ações que promovam a diferença, sempre lembrando do resgate de nossa espiritualidade, independente desta ter ligação a algo religioso ou não, como fortalecimento de nossas essências na busca por uma forma de transcendência, na qual sejamos luz para o mundo ainda envolto em trevas.

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