Capítulo 10: Ela perdeu-se

1/15/2017 09:39:00 AM

Por mais confuso que seja explicar os próximos acontecimentos, eu assim os narrarei. Há mistérios perdidos em uma garrafa mágica naufragando em navios turbulentos de águas tempestuosas, cujo os esclarecimentos serão complicados de elaborar. 
Eu jurava que não havia nenhum resquício de ar que houvesse sobrevivido em meus pulmões. Eu jurava que não havia nenhuma chama de vida em mim, mas acordei com as palavras: "Você está presa!"
Estava em um quarto desconhecido rodeado de pessoas mais desconhecidas ainda. A confusão em minha cabeça era eminente. O corpo petrificado de Carmilla exalava uma paz, apesar de eu ter a certeza, de que ao contrário de mim, ela estava morta. A minha capacidade de raciocinar já não funcionava mais. Havia um vestido feito sangue sobre o meu corpo que se estendia até o chão. Em minha mão direita, em um brilhante punhal cor de rubi que ardia como fogo por entre meus dedos nus.
"A denúncia foi condizente com a situação, dizia outro policial. Não tive nenhuma reação, manifestada. Meu corpo estava paralisado, pra não dizer horrorizado. O que realmente estava acontecendo comigo? "Pobre criança... O que insinuastes nestas folhas? Um desvio de sua mente doentia?"
E foi ai que eu vi meu raptor, meu amor, meu acusador. Ele pareceu ter uma patente elevada no sistema de polícia local. Ele pediu gentilmente que eu o acompanhasse de boa vontade, caso contrário seria necessário usar a força. Por mais que meus lábios quisessem dizer as verdades reforçadas em meus relatos, quem acreditaria nesta pobre infeliz?
"Ela sempre teve inveja de minha filha.", dizia a mãe de Carmilla. Aquela pobre senhora só podia ter ódio acumulado em seu coração. Também, na situação em que via sua amada filha morta, até eu condenaria alguém mesmo ela dizendo ser inocente.
"Quanta vergonha! Maldito seja o dia em que eu gerei este monstro!" Ousou dizer a minha própria mãe e ai residiu o choque maior. Minha própria mãe! Por Deus! Ela me criou por tanto tempo e mesmo assim não me conhecia? Ela me criou e mesmo assim duvidara da doce essência de minha alma? Até mesmo eu, na profundidade da tristeza, duvidei quem eu era, o que eu fizera. Estava louca? Tudo deveria ser fruto de minha imaginação? Mas aquele sorriso sarcástico nos lábios do primeiro homem que beijei, me fez enxergar a verdade: o silêncio, o enforcamento ou o sanatório. Três opções que se resumiam a uma única perspectiva em minha mente: a morte. 
Eu conseguiria redimir de meus crimes nunca cometidos, mas mesmo assim atribuídos? Talvez houvesse um pouco de misericórdia naquela mente diabólica do homem cujo o meu coração sempre seria escravo de um forma de amar agonizante: ele demonstrou a todos, as linhas dançantes de minha insanidade. Como se não bastasse, até as palavras de minha mãe, sobre o meu comportamento desviante serviu para que a pena de enforcamento não mais existisse, que os parafusos soltos de meus miolos sem juízos fossem consertados.
Foi depois de muito tempo, com a alma limpa por não ter certeza do que eu fiz, que aceitei o hábito religioso, assim que fui liberta do sanatório. Não havia rastro de rostos familiares. Acho que a perspectiva da história é sempre contada por aqueles que detém o poder ou por quem ganha alguma batalha. Perdedores não tem voz ou vez de ter registrada suas verdades, Justine.
Perca-se em cada mentira anotada e busque no silêncio o perdão para o monstro que ainda te chama, pequena criança.
PS: Ele ainda vem visitar-me com aquele sorriso negro que me embriagava.

Ainda não é o fim.

Ass: P. Justine

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