Capítulo 5: Honras ao Mestre- parte 2

2/14/2017 12:17:00 PM

Os discípulos do Mestre Ninkal organizaram o maior enterro que o Japão já viu. Dimmy me levou em seus braços por todo o caminho e no meu interior a dor rasgava minhas memórias: ficava cada vez mais difícil respirar, eu não conseguia controlar as lágrimas em meio aos soluços. Aquele foi o pior dia da minha vida. Mesmo com aquela idade, eu pude sentir a dor.

Depois de muito tempo, os adversários da academia de Mestre Ninkal fizeram de tudo para que o recinto fosse fechado, até que depois de muita perseguição e dívidas, o sonho de meu pai também morreu. Cada discípulo, no final das contas, deu as costas para o seu verdadeiro mestre, e foram para lados opostos da vida. E nós, pequenas garotinhas, ficamos sem um mentor e sem um lugar para morar. Estávamos na rua da amargura.

            Ao saber que nós fomos despejadas, Dimmy chegou a falar com Selene, às escondidas, para pedir que ela fosse morar com ele.

“Dimmy, eu sei que você e eu somos amigos e que sua mãe não me aceitaria em sua casa, até porque recentemente ela proibiu a nossa amizade, não é? Somos aos olhos dela, pobres diabos. Além disso, eu sei que você e seus pais tem muitas despesas e não queremos ser um fardo a mais em sua vida. A polícia está atrás da gente e eu não vou parar em um orfanato... O que infelizmente tenho a dizer são duas palavras: adeus amigo!” Selene poderia parecer grosseira, mas eu em seu lugar não aguentaria tanta dor. Ela só tentava de todas as formas de escapar de seu laço, mas havia uma ligação especial que o destino insistia em sempre realçar: Selene você é pura dor e rancor!

Dimmy apenas abaixou sua cabeça, olhando para o chão e nos seus pensamentos imaginava como seria a vida dele sem sua melhor amiga por perto. “Talvez eu não a veja nunca mais.” As palavras saíram como melindres melodias que não foram ouvidas por Selene, que simplesmente me colocou em seus braços e caminhou sem olhar pra trás. Talvez no fundo, esta despedida estivesse doendo muito. Ver aqueles olhos tristonhos de Dimmy seria o fim para minha irmã.

            Era uma noite bastante chuvosa. Foi o que eu me recordo bem... Estávamos fugindo da polícia e do conselho tutelar.

“A rua é um lugar muito perigoso pra se viver.”, dizia Seelene a todo instante. “O que eu vou fazer? O que eu vou fazer?” Ela simplesmente parou de caminhar e me deixou no chão, começando a chorar, em seguida. Eu não sabia mais distinguir a água da chuva e suas lágrimas. As duas se fundiram e não cessavam mais.

            Uma senhora bastante idosa passava com seu guarda-chuva e com umas sacolas de compras em um dos seus braços. Ela nos viu e se aproximou de mansinho.

“Meninas, o que estão fazendo aqui nesta chuva? Onde estão os seus pais?”

“Não temos casa nem família. Acha que a gente gosta da chuva só por gostar?” Selene respondeu abruptamente. A velha senhora apenas estendeu sua mão, ao mesmo tempo em que falava:

“Esse gênio lhe persegue mesmo. Gostei... Agora vocês tem uma casa e uma família.” Um longo silêncio perambulou naquela rua. Não houve nenhuma resposta de Selene, até que de repente ela se levantou e acompanhou a mulher que chamou um táxi. “Aliás, meu nome é Mazareth.” Nós entramos no táxi e depois de algumas horas chegamos a um local bastante humilde, e lá no final da rua ficava a casa de Mazareth. Ela pagou ao taxista e nos conduziu a sua casa pequena, mas acolhedora. Ela dormiu no sofá e colocou Selene e eu em sua cama.

            “Bem meninas, vocês devem estar muito cansadas. Selene, vista essa roupa, eu acho que cabe em você e deixe essa roupa molhada lá fora. Ah, e pra pequenina, eu vou ver se arrumo um lençol ou algo assim.”

“Ela não precisa de seus lençóis porque as roupas dela estão aqui!” Selene foi logo mostrando uma bolsa que ela carregava.

            “Ah, mas elas estão molhadas, de todo jeito. Pode deixar que vou dar um jeito de arrumar roupas novas para a pequenina.” Já bem vestidas e aquecidas, fomos dormir e posso dizer que foi uma noite tranquila, apesar da chuva de lá fora.

Pela manhã, o café já estava pronto. Estávamos com muita fome e se a senhora Mazareth não tivesse tirado o prato, acho que a gente também tinha comido ele... Pela tarde ficamos sozinhas, porque ela trabalhava em um supermercado e não poderia faltar ao emprego, não é? Afinal, nos acolher foi o maior gesto de bondade, e eu estaria eternamente em dívida com a dona Mazareth. Assim que chegou do trabalho, enquanto preparava nossa jantar, a nossa mãe adotiva tentou descobrir mais a respeito de assuntos inerentes de nossa vida:

“Eu deveria ter perguntado isso logo a você, mas eu reparei que estava em estado de choque, acho que eu não posso deixar o tempo passar... Minha querida, quem são seus pais?”

“Eu não sei quem era minha mãe e meu pai morreu. Ele se chamava Ninkal.” Ao pronunciar o nome do homem que, para sempre seria seu pai, dos olhos de Selene escaparam as lágrimas.

            “Ah! Você é filha do falecido mestre Ninkal? O da academia....”, as palavras foram interrompidas pela resposta de Selene, que se sentou e ficou observando o céu.

“Ele era um homem tão bom.... Eu sinto muito a falta dele.”

“Eu imagino... Também perdi meu pai quando eu tinha aproximadamente a sua idade. Eu cheguei a conhecer seu pai, mas não sabia que ele tinha duas filhas.”

“Nós na verdade somos adotadas.”

“Bobagem, menina. Vocês foram filhas dele, de todo jeito. O sangue não é tão importante quanto o amor. Lembre-se sempre disso. Também saiba que eu devo muito ao seu pai adotivo e que por isso eu vou cuidar de vocês. Contudo há alguns procedimentos legais que eu devo fazer para ter a guarda definitiva de vocês. Por acaso ele tinha algum irmão, família, ou sei lá o que mais?”

            “Não. Mas tenha certeza que ninguém vai querer ter a guarda de duas aberrações...”, agora as palavras sairão com um profundo ódio. Aberração? Era assim que ela achava que era? E a mim? Eu também era uma aberração para Selene ou apenas um fardo que ela carregava por causa da promessa que ela fez a Ninkal? Eu comecei a chorar e logo ela percebeu o que tinha feito. Selene me pegou em seus braços e começou a pedir desculpas: “Não foi isso que eu quis dizer, sua pequena chorona. Na verdade, eu queria dizer que nós somos diferentes das outras pessoas”. Ela abaixou a gola da roupa e dona Mazareth apenas olhou as tatuagens ao redor de seu pescoço. Mesmo incomodada, ela ousou perguntar:

“Quem fez isso em vocês? Não acredito que Ninkal possa...”

            “Não! Você é louca? Na verdade, eu não sei. Tanto eu como Sahui nascemos assim: com esta marca, com este sinal. Agora, se o interrogatório acabou, eu gostaria de ir dormir.”

“Tudo bem. Amanhã eu vou preparar os documentos das guardas provisórias de vocês. Eu não me importo se vocês são diferentes ou não, pois o importante é o que vocês carregam no coração.” As palavras de Mazareth não sairam de minha cabeça. Ela era uma mulher sábia assim como Ninkal.


De manhã, Mazarh levou uma papelada de documentos para dar entrada ao processo de adoção. É claro que não voou ficar explicando as dificuldades e o tempo levado para que tudo finalmente transcorresse da melhor maneira possível. O importante é que agora tínhamos alguém que com certeza iria cuidar da gente. 

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