Capítulo 6: Crescendo- parte 1

3/08/2017 06:51:00 AM

Havia se passado treze anos. Selene enfim tomou coragem e ligou para Dimmy, assim que tudo estava bem para nós. O pobre do Dimmy não conteve as lágrimas de tão emocionado que ficou ao saber que estávamos vivas. Mesmo com raiva por Selene tê-lo feito esperar por tanto tempo, Dimmy compreendeu os motivos pelos quais Selene preferiu o afastamento e o silêncio. Em seu íntimo, Selene viu que não era a hora de vergonhas e medos, pois agora tinha uma família e muito amor em seu coração indomável.

            Eu estava perto de completar meus 15 anos. Selene já tinha 22 e Dimmy 23 anos. Nós agora vivíamos muito unidos, feito chiclete mesmo. Os dois me deixavam na nova escola e depois iam juntos para a faculdade, apesar de estarem matriculados em cursos distintos.
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Hoje é o dia do meu 15º aniversário. Eu acordei com um pensamento em mente, além de estar meio sentimental. Eu estava com uma vontade imensa de conversar:

            “Ei Selene, eu queria muito que mestre Ninkal ou os meus pais estivessem aqui comigo para comemorar meu aniversário. Eu me sinto às vezes tão só, como se eu fosse um ser disperso neste universo.”

            “Não se esqueça que somos duas.”Uma gargalhada completou a resposta de Selene, que ficou novamente séria e pediu que eu continuasse a expor meus pensamentos:

            “Eu estou sempre procurando respostas e não acho nada convincente. Me lembro de toda a história que você me contou, mas para mim não é o bastante. Eu sinto a necessidade de ir além, de investigar mais, mesmo sabendo que você, Mazareth e Dimmy constituem um elemento bastante significativo na minha vida.”

“Olha só a linguagem dela? Está filosofando bonito! Dimmy, traz para ela aquele negócio que eu te dei, está ali, aquela caixinha amarela...” Nem posso dizer a ansiedade que tomou de conta de meu corpo ao saber que Selene provavelmente comprara uma lembrança para mim!

“Nosso pai disse que quando você fizesse 15 anos, eu devia entregar um presente que veio junto com você, naquele dia que você ‘caiu’ na Terra, sabe?”

“Nossa, Selene! Até parece que eu vim de uma nave espacial, que eu sou um ET...”
“Toma e abre logo!” Ela apenas jogou o presente e eu pulei para pegá-lo. Ao mesmo tempo que eu abria, Selene me disse que era uma medalhão e que provavelmente pertenceu a alguém da minha família, o que me deixou bastante feliz.

            “Tocando neste medalhão, eu senti uma energia envolvente, como se realmente este presente tivesse pertencido a alguém que me amou muito.”

“Ah, beleza, né? Olha... se eu tivesse recebido um presente como este, de supostamente alguém que um dia me amou, eu jogava no lixo, porque não tem presente mais significativo do que o amor. E amar significa não abandonar alguém!”

“Eu não vou me desfazer de algo...” Eu nem tive tempo de terminar minha frase, porque Selene foi logo disparando palavras contra mim:

“Sabe qual é o seu problema? Você é muito tola e sentimental. Se toca garota! Tanto os meus pais verdadeiros quanto os seus nos abandonaram porque somos aberrações.” Quando Selene ficava chateada ou algo assim, sempre falava que ninguém gostava dela porque ela era uma aberração. Aquela palavra me fez estremecer. Eu não queria ter dito isso a ela, porém estava com a cabeça quente:

“Me deixa em paz. Saí daqui!” Na verdade, eu não falei: eu berrei e apontei para a porta. Ela pegou uma mochila e saiu. Nem fechou a porta. Dimmy tentou explicar o motivo pelo qual Selene disse aquelas coisas. Para ele, não importava se ela estava certa ou errada: ele sempre a defendia.
“Olha Sahui, não ligue para o que ela diz. É que às vezes ela é assim mesmo... Pensa uma vez e diz logo as coisas sem nem se importar o quanto vai ferir ou magoar as pessoas. Eu sei muito bem o quanto ela mudou desde a morte do pai de vocês. Ela não aceita até hoje que ele morreu e desconta sua ira em todos nós.”

“Eu não tenho culpa disso. Ela fala como se eu fosse a culpada pela morte de Ninkal.”

“Ela vai logo pedir desculpas a você. Vamos esquecer de tudo isso, porque hoje é o seu aniversário. É o dia de você sair e se divertir!” Ele era realmente uma ótima pessoa amável e sempre tentava colocar um clima que não existia mais: o de alegria. Eu peguei o medalhão e o coloquei em meu pescoço
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Com todo esse acontecimento e discussões, eu não percebi que um estranho estava observando a nossa casa. Eu estava bastante entediada e preocupada, porque as horas passavam e Selene não voltava. Mazareth também estava aflita, perguntando direto sobre as horas, e eu não aguentava mais o sentimento de culpa que crescia em meu coração. Havia uma necessidade inexplicável de protegê-la, que sempre me atormentava.

Dimmy, tente achar Selene e traga ela de volta. Eu acho que você deve saber os locais onde ela frequenta. Por favor, me ajude. Eu estou com medo que algo de ruim aconteça, já que ela saiu tão revoltada.”

            “Tudo bem. Não se preocupe. Acho que eu sei onde ela sempre vai quando está zangada. Boa noite, amiga.”

            “Boa noite, Dimmy.”

            Finalmente meu amigo Dimmy encontrou minha irmã brigona, ao lado das ruínas da antiga academia de meu falecido pai adotivo. Ela estava vivendo seu momento sentimental, seu próprio melodrama de uma vida real. Dimmy se aproximou cuidadosamente, com medo de assustá-la, mas ela não se importou com a suposta presença de um estranho se aproximando aos poucos.

“Selene, vamos voltar para casa? Todos estão preocupados com você.”

“Me deixe em paz, Dimmy.”

“Selene, não seja tão rude!”

“Todo dia eu fico pensando em como fui tão fraca, como eu não consegui fazer nada! Eu não pude ao menos deixar uma lembrança de meu pai viva neste mundo. Olhe o que restou do trabalho dele! Ninguém lutou por ele, mas ele lutava por nós. É esse o preço a ser pago?” Ela apontava para as depredadas ruínas da academia e arremessou uma pedra com tanta força, que se tivesse passando alguém naquele exato momento, não tinha sobrado nada. Na verdade, ela estava tentando se libertar dos laços do passado que a deixava enfurecida consigo mesma

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