Capítulo 7: Crescendo- parte 2

4/26/2017 09:23:00 AM

“Selene, não foi sua culpa, você...”

“Mas eu não me conformo. Tentei durante todos esses anos, esquecê-lo, mas não consegui. Eu me sinto agora como se fosse aquela garotinha de 13 anos atrás...”

 “Selene, venha aqui!” E Dimmy abraçou Selene, envolvendo em sua camada invisível de conforto, uma alma que necessitava de um abrigo, de proteção, de um rio para fazer correr suas águas (que neste caso seria um rio para fazer correr as suas lágrimas). E eu? Já estava ficando muito preocupada porque as horas passavam rapidamente e nenhum deles retornava. Eu fui até o quarto de Mazareth, que ainda estava acordada.

“Olha mãe, eu acabei de falar com Selene e ela está voltando. Ela já esfriou sua cabeça. Aproveite o tempo e procure dormir, porque a senhora está com uma cara de cansada... Além disso, eu também vou dormir, porque amanhã tenho prova e eu não posso chegar atrasada”.  Eu tive que inventar uma pequena mentirinha, pois estava preocupada com a saúde de minha velha mãe Mazareth. Fechei a porta do quarto dela cuidadosamente e mais cuidadosamente ainda foram os meus passos para fechar a porta de entrada da casa e sair a procura dos dois. A pressa era tão grande, que não notei passos de estranhos no meu encalce, enquanto eu andava pelas ruas de Tóquio, tentando imaginar o lugar onde Selene e Dimmy estariam. Será que os dois estavam na casa da mãe dele? Era uma boa opção a ser investigada, presumi.

            Já se passava mais de 11 horas da noite e eu no desespero, nem percebi que estava tarde demais. E para piorar, fiquei meio desorientada sobre a rua da casa de Dimmy. Fazia pouco tempo que ele tinha se mudado, pois a nova localidade onde ele mora agora fica mais próxima da faculdade. De repente, fui surpreendida por quatro bêbados que estavam em um beco sombrio. Um deles, o mais magro e alto, de aparência assustadora, começou a ser aproximar de mim.

            “O que é que isso? Olha só a bonequinha que apareceu? Por acaso não sabe o caminho de casa? Venha aqui, eu vou te mostrar!” E foi se aproximando de mim e esticando seus braços em minha direção.

            “Yahiksu, falando assim você só vai deixar a garota mais assustada do que ela já tá! Olha princesinha ninguém aqui vai fazer nenhum mal a você, é só você me passar esse medalhão, está bem?”

            “Me deixe em paz.” Essas palavras saíram mais trêmulas do que os movimentos do meu próprio corpo. Esse medalhão era importante pra mim, e num ato de desespero, eu tentei dar passos com a finalidade de me manter afastada dos meliantes. Na verdade, meus passos desorientados pareciam com um equilibrista bêbado em sua corda bamba tentando caminhar de um lado para o outro, mas sem noção da queda que lhe aguardava.

“Olha só, se você não entregar pro tio o colar, você vai ver como é...”

“Isso não são modos de falar com a princesinha!” Eu só pude fechar meus olhos e me envolver em uma bolha. Foi nesse momento que, em que tal voz fez com que eu ficasse mais temerosa, que ao abrir meus olhos, me vi cercada pelos meliantes. O mais forte me segurou, enquanto o mais atrevido Yahiksu, começou a passar a mão em meu rosto, em minha boca, em meu pescoço. O mais baixo colocou a mão na minha boca para eu não gritar. Eu já não sabia mais o que fazer. Eu tentava gritar, tentava bater naqueles homens, eu chamava em pensamento por Selene e Dimmy, pensei até em mestre Ninkal. O que eu faço? Alguém me ajude!

Em meio a todo esse acontecimento, surge do final do beco um homem diferente. Ele era alto, forte, de pele branco-gelo, seus olhos azuis brilhavam em direção aos meus, seus cabelos loiros e luminosos contrastavam com a escuridão da noite. Ele caminhava lentamente com uma graciosidade impecável, enquanto estralava os dedos de suas mãos com um raiva que transparecia em seu rosto. Eu pensei comigo mesma: Seria ele o líder dessa gangue de bêbados devassos?

“Esses não são modos de tratar uma dama? Ou foi princesa, que você acabou de dizer há pouco tempo? Eu sugiro que vocês se afastem dela imediatamente.”

“Ou senão o que vai acontecer com a gente?” O Yahiksu logo respondeu, enquanto me largava contra a parede, e caminhava em direção ao desconhecido, com uma garrafa de cerveja e uma faca.

“Ou senão vocês todos irão morrer!” A partir daquele momento, eu soube que esse desconhecido não pertencia ao bando de ladrões e que ele estava disposto a me ajudar.

            “Ei caras, vamos dar uma lição nesse rapaz que se acha o tal! Ele pensa que sozinho pode lutar contra nós quatro, que somos muito mais fortes do que ele.” Eu não tinha pernas para correr. Somente olhos para assistir o que veria a seguir. O sangue fluía de cima para baixo, de baixo para cima, parecia que minha cabeça estava prestes a explodir, meu coração acelerado sempre querendo sair pela boca, enquanto eu enchia meus pulmões de ar e tentava ficar viva por mais um instante.

Aquele desconhecido era muito hábil. Os caras circularam o rapaz misterioso e avançaram como cães ferozes, com suas armas empunhadas em suas mãos, e sem hesitar, atacaram de uma só vez. Eu fechei meus olhos para não ver a morte do rapaz. Mas ele, em questões de segundos, conseguiu derrubá-los num movimento único e mortal. Ele foi até piedoso e poupou as vidas deles.

            “Que isto lhe sirva de lição para nunca mais tentar fazer nada de mal contra qualquer pessoa, bando de bêbados imundos.”

Eu olhei aquele rapaz misterioso com olhares assustados. Ele cariciou o meu rosto frio e quase sem expressão (a não ser de medo) e me levantou do chão.

“Você está bem? Eles fizeram algo...”

“Eu estou bem, só um pouco assustada. Obrigado por ter me ajudado. Qual é seu nome?” Na verdade, eu tinha que saber o nome da pessoa encantadora que me salvou das mãos daqueles homens.

            “Me chamo Kasuro e pelo visto, sua beleza não mudou nada desde 15 anos atrás. Você continua com os mesmos olhos verdes e inocentes, com a pele tão branca quanto o céu no dia de inverno, esses cabelos ruivos que me recorda muito a sua mãe e lábios tão vermelho quanto o sangue que corre em minhas veias. Volte agora mesmo para casa e não se preocupe com sua irmã, com certeza ela está bem.” Ele rapidamente beijou minha testa, e com a mesma rapidez arrancou do meu pescoço o meu medalhão e desapareceu numa fração de segundos.   

            O que aquele homem queria de verdade? Tudo que ele queria era também me roubar? Com eu sou tão tola? Fui enganada por só mais um rostinho bonito. Eu voltei para casa completamente triste, pois aquele tinha sido o meu pior aniversário. O que mais podia acontecer? Eu não pude conter as lágrimas, e ao chegar em casa fui direto ao meu quarto e chorei bastante.

Algumas horas se passaram, eu já estava dormindo. Selene me vigiava com aqueles olhos negros e pedintes, com seus longos cabelos pretos e cacheados que faziam cócegas no meu pescoço. Ela tinha voltado para casa. Eu fiquei muito feliz, apesar do tremendo susto.

            “Você hoje vai ter que me desculpar duas vezes. Primeiro, por ter sido um pouquinho arrogante bem no dia do seu aniversário... E segundo, por eu ter lhe assustado, quer dizer eu não sou assim tão feia pra você ter medo de mim, eu não sou nem o bicho-papão?” Sempre fazendo piadas quando estava de bom humor. Isso era um bom sinal, mas e se ela adivinhasse o que aconteceu comigo? Que o medalhão que eu acabara de ganhar, eu perdera por incompetência e por acreditar em um salvador-desconhecido? Tiver que desconversar, para que as prováveis lágrimas que começavam a se formar em meus olhos, denunciasse meu crime.

“Você está desculpada. E o Dimmy? Cadê ele?”

“Já está em casa, dormindo como um anjinho. E pelo visto a Mazareth também dorme, ou seja, ronca como um anjinho.”
            Pois então, boa noite irmã. E comecei a chorar. Tarde demais com o plano de ocultação.

“O que raios aconteceu? Não está feliz com o meu retorno? Eu posso simplesmente sumir de vez, como todo mundo, né?”

“Não é nada disso. É que ontem à noite quando você saiu com raiva e quando passaram as horas e nem você ou o Dimmy deram notícias, eu resolvi ir atrás de vocês. Eu pensei que vocês estavam na casa da mãe dele. Uns caras me perseguiram até um beco sem saída e de repente surgiu um rapaz que me salvou daqueles caras, mas em compensação roubou meu medalhão.”

            “Ok. Eu preciso de um drink duplo. Fala sério! Roubarão teu medalhão? Oh, Sahui, desculpa aí... Eu causei tanto mal a você, né? Mas eu prometo que vou achar esse ladrãozinho e ele vai me pagar. Eu juro!”








         




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