Capítulo 8: A verdade- parte 1

5/17/2017 06:00:00 AM

Eu não podia ter sonhado coisas boas? Era pedir demais que só por hoje eu esquecesse o meu passado, a incontrolável busca de quem realmente eu sou? Os sonhos pareciam borrões misturando realidade (eu acho que era), com mais imagens sem sentido. Sonhei com uma mulher linda que carregava em suas mãos um medalhão, quer dizer, meu medalhão. Ela olhou para mim e sorriu, e de repente sua imagem desapareceu. Acordei com o barulho do despertador.

Às vezes despertadores são bons para acordarem a gente quando estamos tendo pesadelos, mas também são ruins porque nos acordam de sonhos reveladores. Caminhei lentamente até a apertada cozinha. Abri o armário e peguei uma massa de panqueca e na geladeira, tirei o peixe e o coloquei para degelar. Quando comecei a fazer as panquecas e a fritar o peixe, escutei os gritos desesperados de Selene:

“Sahui, Sahui, vem aqui. Rápido!” Eu larguei tudo e saí correndo, meio sem direção. Eu fechei meus olhos por um segundo e respirei fundo. A porta do quarto de Mazareth estava aberta e Selene estava ao lado da cama dela. Eu me assustei ao olhar para minha mãe.

“Olha Sahui! Parece que ela tá com a mesma doença que matou meu pai. Aquela cara, aquele olhar, aquele tom de pele...”

“Não fale besteira. Eu vou ligar para o médico e ele vai passar algum remédio.” Mesmo fraca, Mazareth respondeu:

“Meninas, eu estou bem, ok? Só estou um pouco cansada. Deve ter sido algum esforço extra que eu fiz ontem. Vocês sabem: quando a idade chega, vem uma bagagem de problemas.” As palavras de Mazareth aliviaram a minha preocupação, mas Selene estava apreensiva, como se tivesse vendo um filme. Eu era muita pequena para guardar tais recordações, mas Selene sofreu o bastante para aceitar uma segunda perda, vendo os mesmos sintomas repetitivos.

 Por isso, fomos ao Hospital Central de Tóquio. Nossa mãe estava sendo atendida pelo médico, quando ouvimos seus gritos. A nossa reação foi rápida ao adentar no recinto. O que podia ter acontecido com ela? Estaria à beira da morte?

Pela primeira vez Selene não se conteve e começou a chorar, sem se importar em saber que a gente estava lá, vendo tudo. Mas toda essa agonia só fazia me sentir cada vez mais mal, parecia também que eu estava morrendo com ela. O médico já não sabia qual procedimento fazer, e parecia aguardar o Anjo da Morte levar sua paciente. Eu implorava que salvasse Mazareth, contudo o doutor permaneceu imóvel. Selene o esbofeteou, berrou e cedendo a dor, prostrou-se na cama, onde jazia a nossa mãe adotiva.

Do nada, digo que um milagre aconteceu. Não havia mais nenhum sinal de pulso ou de respiração. Sua pele pálida e mau-cheiro eram sinais de uma morte misteriosa, que deixou perplexo o médico e a todos nós. Mas Mazareth olhou para nós, com os olhos cheios de vida, seu rosto pálido se transforma numa face de luz, cheia de vida. E sua respiração e pulsação se normalizam. Eu dava pulos de alegria e rodopiava que nem uma louca de tanta felicidade. Eu acho que eu não sobreviveria a mais um desgosto. O médico pediu que saíssemos do quarto, enquanto seria feito alguns exames para descartar isolamento por alguma espécie de epidemia ou uso de arma química, e logo também, estaríamos fazendo tais exames para possivelmente sermos liberadas se tudo estivesse bem conosco. Contudo só pude ouvir quando Mazareth dizia ao médico, que fora tocada por um Anjo e por isso estava viva.

                Posteriormente o médico chegou com nossas exames, nos liberando, em seguida. Quanto a Mazareth, mesmo os exames não apontando nada de grave, ele sugeriu que ela passasse mais algum tempo no hospital. Selene insistiu para que ela fosse assistida por outro médico, pois ainda estava zangada com a atitude de inércia do doutor, na ocasião passada. Eu dei um tapa nas costas dela, gesticulando que tudo estava bem. Era o medo, que nos corroía. Simplesmente o medo do desconhecido chamado morte...
***

                Passaram alguns dias. O médico não soube dizer que doença era, mas que tudo estava bem e a paciente, nossa mãe, estava liberada.
***

                Eu cheguei da escola e fui trocar de roupa, para ir tomar banho e almoçar. O dia foi muito puxado: provas e provas, matérias e mais matérias. O que eu queria mesmo era relaxar um pouco (na verdade uma vida com sombra e água fresca seria ótimo!).

                Nesse exato momento alguém bateu na porta de minha casa. Mazareth estava na cozinha muito ocupada e pediu para que eu fosse atender. Ao abrir a porta, eu quase desmaiei... Pensando melhor, acho que correr seria uma boa opção! Adivinhe quem era?

                “Ei, você é o cara que roubou o meu medalhão! O que você está fazendo aqui? Por acaso veio me devolver u veio roubar mais coisas? Se você não sair daqui, eu juro que grito chamando a polícia!”

                “Bem... Houve um mal entendido que precisa ser esclarecido.”

                “Para você, não há tempo para esclarecer nada! Vá embora, por favor!”

                “Precisamos conversar. Você terá que confiar em mim!” Ele segurou minhas mãos com tanto carinho, que não pude deixar de vacilar. Estava na cara que Kasuro era mais do que um ladrãozinho para mim, por mais que negasse.

                “Sahui, quem é?” Mazareth perguntou da cozinha, onde ela terminava de preparar o almoço. Bem, o que eu podia dizer? Eu podia gritar, mas isso poderia prejudicar a saúde dela, pois fazia pouco tempo que ela teve alta do hospital. Eu odiava mentir, porém não me restou outra opção.

                “É um amigo da escola, que veio deixar uma apostila que eu esqueci na sala de aula, mas ele já está indo embora.”

                “Não! Mande ele entrar, eu vou colocar mais um prato na mesa.”

                Kasuro olhou assustado para mim e eu também olhava assustada, não em recíproca ao seu olhar, mas sim pelo pedido de Mazareth. Ela iria deixar o ladrão entrar aqui em casa. E se ele fizesse algum mal a gente? Minha reação foi instantânea. Eu fechei a porta, que com o impacto travou por dentro. Eu fiquei do lado de fora da casa com Kasuro, porém sabia que agora Mazareth estava protegida. Eu comecei a empurrá-lo, sussurrando coisas do tipo, “eu vou chamar a polícia, vá embora, me deixe em paz”. Ele olhava para mim, com um olhar cínico, enquanto eu o empurrava mais e mais.

                “Ei, Sahui, calma aí. Me deixe falar... Eu não posso e nem pretendo entrar em sua casa porque senão aquela senhora iria me reconhecer...” Agora eu fiquei paralisada com esta declaração. Ele me segurou firme. Eu fique imaginando se ele teria feito algum roubo enquanto estávamos no hospital.

                “O que você quer dizer com isso? Por acaso você nos roubou? Seu cretino, vagabundo, infeliz!” Ao mesmo tempo que eu dizia isso, eu batia em seu peito duro como aço. Eu comecei a chorar feito uma criança, e ele me envolveu em seus braços. Nós caminhamos até um banquinho que tinha perto da varanda. Eu já não sabia o que eu estava fazendo. Simplesmente me deixei conduzir por cada passo que ele dava, sem me importar em qual caminho obscuro estávamos seguindo.


  • Share:

You Might Also Like

0 comentários