#Resenha "No começo eram os deuses"- Jean Bottéro

Resultado de imagem para "No começo eram os deuses"- Jean BottéroBOTTÉRO, Jean. No começo eram os deuses. Tradução de Marcelo Jacques de Morais. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

O livro possui entrevistas e artigos publicados em uma revista de história, de autoria de Bottéro, que estudou por muitos anos a civilização da Assíria, além de ter traduzido tabuletas e ter trabalhado com Samuel Noah Kramer, um grande sumerólogo, atuando com ele em traduções e comentários de textos mitológicos mesopotâmicos.

Primeiro, é preciso esclarecer que não há o começo da história do homem, ou uma essência histórica civilizatória, e sim "desenvolvimentos, cruzamentos, separações, esquecimentos e redescobertas" na visão de Bottéro (2011, p. 16). Contudo, o autor esclarece que após decifrações em tabuletas, começou-se o interesse em ir mais a fundo no descobrimento da cultura da Mesopotâmia e sua real influência nas culturas orientais e ocidentais.

A escrita, por exemplo, foi oriunda do "empréstimo aos fenícios, o genial sistema alfabético tem suas raízes na Suméria (2011, p. 17). Segundo dados arqueológicos, a escrita na Mesopotâmia é oriunda há cerca de  cinco mil anos. Destaca-se quanto a língua na Mesopotâmia, um sistema bilíngue: sumério e acádio. "Os sumérios, vindos talvez pelo mar do Golfo árabe-pérsico, parecem ter cortado os laços com sua pátria de origem. Os semitas, em compensação, se enraizaram em um poderoso passado, que remota a Síria" (2011, p. 20). 

Outra contribuição desses povos é a questão dos deuses, seres divinos e toda uma mitologia do homem-mundo-deuses. 

A influência no mundo grego da mitologia babilônica é vista por Bottéro como uma evolução à filosofia, a ciência e ao racional que ganham magnitude na Grécia, mas sua base, seus primeiros rabiscos estão na Mesopotâmia. 

O autor afirma que esse povo também contribuiu nos estudos da astrologia e fisiognomia, além de que "encontra-se, é claro, uma vida política e jurídica riquíssima (2011, p. 26). 

Bottéro destaca o trabalho realizado por Georg Friedrich Grotefend (Compêndio da escrita cuneiforme) e seus sucessores que permitiram a tradução e leitura das tabuletas e textos descobertos com inscrições que remetem à Mesopotâmia. 

Os textos religiosos, literários e ademais mais antigo datam do segundo quarto do terceiro milênio a. C e são da Mesopotâmia, oferecendo uma vasta possibilidade de entender a cultura daqueles povos. De âmbito religioso, orações, rituais, exorcismos e magias. Temos textos que abordam  também a matemática, medicina (clínica e terapêutica), gramática, dicionários... São diversos os textos fragmentados ou não que pincelam a tradição mesopotâmica. 

O assiriólogo George Smith em 1972 decifrou tabuletas cuneiformes que eram derivadas das cidades de Nínive, entre elas, uma que traz o Poema do Supersábio que contém o primeiro relato do Dilúvio, que muito se assemelha com o Dilúvio bíblico judaico-cristão, embora as intenções sejam diferenciadas.
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Tabuleta da Epopeia de Gilgamesh

Antes mesmo do surgimento do homem, os Igigi trabalhavam arduamente sob as ordens do deus Enlil para extrair meios de sobrevivência e servir aos Anunnakis , uma raça superior. Os Igigi se revoltam e não desejavam trabalhar. O deus Ea propõe a Enlil que crie o homem para este ofício, criação essa que fica a cargo de Ea e da parteira Mami: da argila e do sangue, o homem é o moldado. 

Mami "prepara o protótipo, que é em seguida realizado por várias deusas-mães em 14 exemplares: sete machos e sete fêmeas, os primeiros 'pais' da humanidade"  (2011, p. 50).  A multiplicação dos homens sob a Terra incomoda os deuses, à medida que os mesmos "perderam o sono", até que os deuses decidem pelo Dilúvio.
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Os Igigi e os Anunnakis
Fonte: https://www.annunaki.org/the-igigi/

Ea avisa para o Supersábio Atrahasis, que salva parte desta humanidade, construindo um barco e coloca sua família, animais, riquezas, mobílias, aliados e próximos, até mesmo mestres de obras. Na tentativa de reconstruir a humanidade e para que a mesma não causasse mais dor de cabeça aos deuses, mas que continuasse sendo "os produtores para os deuses", Ea propõe a Enlil certo controle dos nascimentos que seriam feitos de três formas: mulheres estéreis, demônios destruidores que ceifarão a vida dos bebês e mulheres que abraçarão a vida religiosa e ficarão impossibilitadas de gozar da maternidade.
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Atrahasis e o dilúvio
O mundo dos homens e dos deuses mesopotâmicos é representado de um lado por uma "categoria de produtores" e uma "elite de consumidores (2011, p. 67). 

Com seus ritos e mitos, a espiritualidade mesopotâmica elaborou longas problemáticas sobre a morte e o pós-morte: ao morrer, o homem retornaria à matéria prima de sua criação (pó=argila) e devia ser deixado para descansar; é verdade que algo originado do defunto poderia ter uma forma: este seria um fantasma ou aparição, que poderia ser vista pelas demais pessoas (gedim=sumério e (w)eti'mmu= acádio(2011, p. 92).  O certo é que estando morto, esse homem iria para a morada dos deuses de baixo, ou seja, o Ki, que seria na nossa visão o Inferno, onde ficaria sob a jurisdição dos deuses.

Outro destaque a ser mencionado é a questão da medicina dos médicos e a medicina dos magos, ambas destinadas a combater tanto o mal físico como aquele espiritual que atrairia a doença do corpo. "Médico e exorcista tratavam, portanto, simultaneamente a mesma doença e o mesmo paciente, cada um de seu lado e com seus métodos" (2011, p. 81).

Em seguida, fala-se das contribuições da Mesopotâmia para os israelitas, que seriam os autores da Bíblia, bem como para os gregos. "E, uma vez que a 'civilização ocidental', na qual continuamos hoje a viver, nasceu notoriamente no início de nossa era, na confluência desse duplo rio, grego-bíblico, os antigos mesopotâmicos são de fato, nesse plano, nossos mais antigos ancestrais em linha ascendente direta, identificáveis nas brumas de nosso passado antes da noite cada vez mais profunda da pré-história" (2011, p. 205 e 206). 

Nos capítulos finais, o autor dedica-se a explicar como a influência de Moisés no mundo antigo determinou o monoteísmo cristão, na figura de Javé. As suposições residem no fato de que, provavelmente, os pais de Abraão "eram politeístas e compartilhavam uma religiosidade comum com os outros semitas e não semitas do Oriente Médio, e quer, se eles mudaram de religião, abandonaram todo um panteão de divindades antropomórficas por uma única, que absolutamente não o era e apenas por Javé, foi pela intervenção de Moisés(2011, p. 252). Moisés enquanto fundador da religiosidade monoteísta e do povo que a segue, ao criar esse monoteísmo, ele fez saber da existência de outros deuses, mas proclama Javé como único Deus. A isso chama-se henoteísmo, "forma superior do politeísmo que consiste não em negar a existência de uma pluralidade de pessoas divinas, mas em escolher uma delas para ligar-se exclusivamente, afastando ao mesmo tempo, todas as outras do campo de sua religiosidade (2011, p. 275). 


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Moisés marca a divisão do povo semita e não semita politeísta, para aqueles monoteístas que cultuariam Javé o Deus único

Por fim, os artigos Deus e o mal e Deus e o crime ilustram a questão, primeira, do mal enquanto "infortúnio, sofrimento físico ou moral, a impossibilidade de obter ou de conservar o que se ama ou de se livrar do que se detesta (2011, p. 257), ou seja, o homem está sempre angustiado, sempre propenso a ser influenciado... o mal sobrenatural recaí na perspectiva de punir por nossas faltas e afrontas ao(s) deus(es), mal esse oriundo também de uma degradação social do indivíduo, justificativa essa que vem desde a Mesopotâmia, e com certeza, de alguma forma, refletiu nos israelitas na elaboração de sua concepção de mal. A resposta para o mal está nos deuses e só eles são capazes de entender o porquê deste mal no ser humano. 

Finalmente, a análise do crime mantém, antes de tudo, uma íntima relação com o pecado e parece acompanhar boa parte da história da humanidade. "Se acreditarmos na Bíblia, o crime é um hábito inveterado do homem" (2011, p. 287), assim finaliza o estudioso Bottéro. 

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