Promessas que o tempo não apaga

6/11/2013 11:01:00 AM

*obs: havia publicado no marcador errado. 

Francisca Raquel Queiroz Alves Rocha
 Papel de Parede - Casal Romântico

            Desde criança, eu era apaixonada pelo meu melhor amigo, o Adrian. Ele preenchia um vazio existencial em meu peito. Na verdade eu nem sabia que era amor... Eu apenas sentia algo estranho brotando de mim, um sentimento diferente, místico e intrigante... Passávamos tanto tempo juntos, e eu alimentava a esperança de que nunca iríamos nos separar. Mas como é de praxe, o destino gosta de brincar com a gente, não é mesmo? Isso não seria diferente com a gente. Adrian foi embora. Não porque ele queria. Fora obrigado pela mãe possessiva e extremamente capitalista, que tinha medo dos meus reais interesses em relação ao seu precioso tesouro financeiro...

            E assim, meu pequeno e adorado amor se foi... Confesso que foi difícil a separação. Creio que para ambos os lados. Me lembro de suas lágrimas e de seu aceno final quando a megera bruxa dos contos de fada, o forçou a entrar no carro e a deixar tudo pra trás.

...
            Eu era a moça pobre, filha de uma empregada que morrera em serviço e cuja patroa sentia a obrigação de cuidar de sua filha, como um falso gesto de piedade. Adrian era o pequeno herdeiro de uma das famílias mais poderosas de Maine, os McLaus. Essa história nunca daria certo mesmo.

            Nunca mais recebi notícias de Adrian. E por tanto tempo, eu rezei para crescer e me livrar dessa família, mostrar que eu poderia andar com meus próprios pés. O tempo nos força a mudar, a desistir de tantas coisas e a lutar por outras tantas, não é verdade?
            As nossas perspectivas de vida e pensamentos se transformam. Por mais que quisesse alimentar a esperança de que um dia eu o encontraria, ele foi se esquecendo de mim e de nossa promessa:

            “Eu juro Melanie, que nunca você ficará sozinha. Eu sempre estarei aqui, do seu lado, por que...”
            “Por que o quê?”
            “Por que... quer dizer... bem, eu acho... quer dizer, somos amigos. E um amigo nunca abandona o outro.”

            Eu fiquei tensa naquela época quando ele falou isso. “Ele ia dizer que me ama. Só não quer admitir. Ou tem vergonha de dizer isso, assim como eu”, foi o meu primeiro pensamento. Porém são águas passadas... O Adrian que eu conhecia não existia mais. Ele agora era um jovem playboy, que vivia de festas em festas, trocando de companheira como se estivesse trocando de roupa. Nunca engatou numa relação séria como medo da perda... Lá no fundo, ele havia feito uma promessa pra si mesmo no momento em que fora embora:

            “Não vou deixar que o mesmo sentimento que nutri por Melanie me domine. Sei que fui covarde. Mas se ela me amasse mesmo,teria lutado por mim.”

...

            E a Melanie que ele conheceu também mudou. Só não sei se foi pra melhor ou pra pior. Nunca deixei de ser uma garota tímida, apaixonada e infeliz. Vivo em meu próprio mundo ilusório, onde fujo também da dor da separação e da perda do verdadeiro amor, que me deixou profundamente marcada pelo sentimento de abandono e um vazio. Pra mim, promessas podem ser facilmente quebradas. Essa era a única coisa que eu acreditava.

            Éramos adolescentes agora. Um dia como outro qualquer, Adrian resolveu voltar a Maine. O dia que marcara a sua volta, era a data que eu mais odiava em toda a minha vida: o dia dos namorados. Sem saber o porquê e deixando­–se guiar por um impulso infantil (ou qualquer coisa que você queira chamar).

            Eu decidiu comprar flores. Os motivos que eu tive para ir naquele local e naquele exato momento são desconhecidos até hoje. Eu estava de costas, aguardando um pedido que eu fizera anteriormente a jovem vendedora.

            “Bom dia, jovem. Gostaria de alguns muguets.”
            “Você pode aguardar? A moça da barraca vem já.”
            “Certo”

            Aquela voz me pareceu familiar. Algo em meu coração me dizia isso. Fui tragada por lembranças que eu tentei negar. Não seria possível. Assim que me deparei com aquela criatura em minha frente, meu coração gelou. Ele estava mudado, contudo existia algo em seus olhos que me preservava aquele mesmo jovem de antes.

            Adrian! Meu Deus! Ele ainda usava o mesmo colar que eu dera quando éramos criança. Assim como eu, assim que me reconheceu, o choque foi eminente. Nesse momento, um casal de namorados passava do nosso lado, de mãos dadas e rostos felizes. E nós, ficamos constrangidos, como crianças inocentes e tímidas.

            O silêncio pendurou por alguns segundos enquanto nos mantivemos imóveis, tentando captar a real situação diante de nossos olhos incrédulos. De ambos os lados, nenhuma reação exterior fora exposta. Apenas os sentimentos conflituosos do nosso interior era aqueles que reinavam em cada centímetro de nossos corpos.

            A pergunta que eu fazia em meus pensamentos era Por que? Eu deveria ser mais corajosa e manifestar toda a verdade que lutei para ocultar durante todo tempo, verdade esta rodeada por uma fortaleza que julguei ser indestrutível e que agora ameaçava ir a ruínas? Eu deveria luta por alguém que o tempo tratou de nos afastar de todas as formas, assim como nos deixou beirando o abismo do esquecimento?

            Percebemos, dentre os nossos questionamentos, que o afastamento que tivemos, não indica realmente o esquecimento. Era hora de nos libertarmos de nossos próprios temores e preconceitos. Essa era a oportunidade que a vida nos oferecia para recompensar todos os anos de espera, ausência e da tentativa de arrancar do peito qualquer vestígio do sentimento que agora tinha um nome que ambos conheciam: amor.

            Sem perder tempo, Adrian me abraçou e me beijou de um jeito desesperado e assim, o correspondi, mais ansiosa do que nunca para o êxtase da junção de nossos lábios e para sentir o arrepio de nossos corpos tão juntos. Será que agora o tempo poderia fazer um simples favor? Poderia parar por um instante? É pedir demais?

            Parecia que todo o universo girava ao nosso redor. Jovens eufóricos que transitavam naquele instante, vibravam de emoção.

            “Acho que acabei de encontrar a pessoa mais digna do mundo para receber essas rosas, que nada mais é do que a representação de todo o amor que sinto dentro de mim. Me desculpe por minha covardia durante todo esse tempo. Uma coisa é respeitar as decisões que os pais tomam por nós quando acham que nós não somos capazes ou pequenos demais para decidir certos rumos de nossas vidas. Outra, é quando renegamos tudo e tentamos enterrar nossos sentimentos, sem ao menos nos permitir lutar por aquilo que acreditamos ser a verdade que vai reger a nossa vida. Uma vida sem amor, é uma vida mergulhada no vazio. Existem diferentes formas de amar. Da mais simples a mais complexa. O que sinto por você é uma forma extrema do amor. Amor esse que acredito que ambos, em uma dada fase da vida, deixamos de lado em prol de pequenas realizações pessoais, que nunca nos trouxeram tamanha felicidade. Felicidade de aproveitar uma companhia ao lado de uma pessoa legal, inteligente, criativa... Felicidade de dividir sonhos com alguém que acredita em você e que sempre estará ao seu lado...”

            A vendedora chegou com o meu pedido. Adrian pegou um buquê de muguets na barraca, se ajoelhou e me entregou. Apesar do nervosismo, eu tentei entender se tudo aquilo era um sonho. Eu ri de mim mesma quando ao abrir os olhos e  me deparei com aquele moleque de tempos antigos e de suas juras de amor. Promessas podem ser quebradas. Mas graças ao céu, que lá no fundo, por mais que tentamos negar, alimentávamos a esperança de que um dia, o universo conspirasse para que tudo desse certo em nossas vidas.


            “Melanie, sua incansável busca pelo amor acaba hoje. Feliz dia dos namorados.”


Feliz dia dos namorados

Ass

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários