O cenário do futebol amador na cidade de Juazeiro do Norte

10/09/2013 05:57:00 AM

*matéria que fiz pra disciplina de Jornalismo Esportivo

Por: Raquel Alves
            O futebol é o esporte mais idolatrado pelos brasileiros, isso ninguém duvida. Mas como uma moeda, apresenta duas caras: de um lado, temos times grandiosos com talentosos jogadores ganhando uma fortuna, um futebol que, além de ser um grande espetáculo sociocultural, movimenta uma soma de dinheiro dentro de estratégias capitalistas, tornando-se pois, um produto a ser consumido a qualquer custo.
            Do outro lado, temos crianças, jovens e adultos que desde pequenos ou com o passar do tempo, alimentam o sonho de ser uma estrela do futebol nacional, um (a) jogador (a) profissional, mas já estão acostumados com uma realidade de dificuldades no futebol amador, muitas vezes sem ganhar nada além do que a sensação de prazer de apenas jogar com os amigos. Ao longo do caminho de uma possível profissionalização abandonam tal sonho, pois precisam ganhar a vida com outras ocupações que tenham um certo retorno financeiro.
            Todos esses questionamentos estão presentes também no cenário do futebol amador na cidade de Juazeiro do Norte. A professora de Educação Física da Universidade Regional do Cariri (URCA), Alana Mara Alves Gonçalves é uma profunda conhecedora do tema. Em seus trabalhos intitulados “Futebol amador: campo emergente de sociabilidade” e “Uma etnografia do futebol amador” é possível conhecer um pouco mais dessa realidade na terra do “PadimCiço”.
As designações mais conhecidas, referente ao futebol amador, são “racha, pelada e bate bola”.Dentre os estudos acerca do futebol amador existem várias classificações. Para fins didáticos, objetivando um melhor entendimento do tema, a professora Alana Mara adotou duas designações para os jogos de futebol amador: jogos abertos e jogos fechados.
Nos jogos abertos, os times são formados na hora do jogo, ou seja, tudo ocorre naturalmente: um grupo de pessoas decidem jogar futebol, “montam” suas equipes chamando qualquer um que compartilhe do mesmo anseio e partem para o jogo, muitas vezes sem árbitro. Já nos jogos fechados, os times que são nomeados, já são previamente formados. Tem um proprietário ou “dono do time” que é o responsável por aqueles jogadores, bem como é a pessoa que agenda jogos, procura patrocínio para eventos de pequeno porte, etc. “Esse dono do time é uma pessoa que carrega o time nas costas”, complementa Alana Mara. Assim como no futebol profissional, especialmente os jogos fechados obedecem certas regras que dizem respeito a organização dos times (fardamento, equipamentos... ) e um campo, para que ocorram os jogos.
Mesmo com suas especificidades, em um dado momento, o jogo aberto e o jogo fechado podem se mesclar: “A realidade se apresenta muito mais complexa do que aquilo que a gente consegue falar sobre ela, então eu percebi que, de fato, em algunsmomentos essas trocas são fluídas, se misturam de maneira que a gente não consegue classificar se é jogo aberto ou fechado”, diz a professora de Educação Física.
Alguns times de futebol amador juazeirense que estão na “ativa’, participam constantemente de competições, dentre eles podemos citar o Santos, Flamenguinho, Paraná, Coritiba, Bragantino, Campo Grande, Cabralzinho, Penharol, Fortaleza, Comercial, Palmeiras, União Esporte, Jardim Gonzaga, Lagoa Seca e Vasco do Horto.
O professor de Educação Física, Wanderlô Guedes Coimbra, mais conhecido como “Professor Loló” relata que “algumas equipes amadoras aqui do Juazeiro parecem serem esquipes profissionais, em termos de organização”. Algumas delas tem convênio com o município, no que diz respeito a questão financeira, cujo dinheiro arrecadado destina-se as despesas dos campeonatos realizados, bem como as premiações em dinheiro, além de medalhas e troféus. É claro que esta realidade não é válida para todo time de futebol amador existente em Juazeiro.
Os campos mais conhecidos na cidade de Juazeiro atualmente são: o da Micro-Empresa (Matriz), das Poções ou o do Zé Ivan (zona rural), Campo da Boca das Cobras, o Toinhazão (Tiradentes), Vaquejada e o Campo do 2º Batalhão da Polícia Militar.
Dentre os vários nomes que penduram hoje como exemplo de superação no futebol amador juazeirense, jogadores, técnicos, preparadores físicos, etc, que começaram sua carreira no futebol amador e conquistaram a oportunidade de crescer no futebol profissional, Loló destaca: “os irmãos Gerladino, Nena, Nicásio, temos auxiliares e preparadores físicos como Luizinho, Hélio, Arimatéia, que eu considero um dos maiores preparadores físicos daqui da região, que trabalha no Icasa. O técnico do Barbalha, Washington, o treinador Raimundinho e a gente não pode deixar de citar a nossa maior estrela que é o Ronaldo Angelim. Todos eles são um exemplo.”
Hoje em dia, muitas associações ou entidades trabalham com o futebol amador na cidade de Juazeiro do Norte. As principais são a ASSEAJUNO, CADESCOR, AJUAF, LDJ, LDJA e a ONGECEAB.
A Associação Juazeirense de Desporto Amador de Juazeiro do Norte (ASSEAJUNO), cujo presidente é Lourival José da Silva (mais conhecido como Lourão), trabalha com em média 60 equipes da zona urbana, na 1ª e 2ª divisão e master, na categoria de futebol de campo. A associação é responsável também por organizar o “Campeonato da Cidade”, jogos que são realizados em vários bairros juazeirenses.
A Central de Apoio ao Desporto da Comunidade Rural (CADESCOR) atua na zona rural da cidade. Conta com em média 40 equipes e realiza jogos de 1ª e 2ª divisão no Distrito 1 (Palmeirinha) e Distrito 2 (Marrocos). Já a AJUAF (Associação de Árbitros de Futebol) é responsável pela arbitragem amadora não só de futebol, mas também de outros esportes como vôlei, handebol e basquete.
A Liga Desportiva Juazeirense (LDJ), que tem como presidente o senhor Matias e seu filho Alan Samir, trabalha com as categorias de base, sub 18 e sub 20, realizando competições que acontecem no estádio do Romeirão e conta com 26 árbitros.
 O professor Gilberto é o presidente da Liga Juazeirense de Desporto Amador (LJDA), e a sede é no Poliesportivo. A LJDA é responsável por um evento destinado aos esportes de quadra (futsal, vôlei, handebol e basquete), chamado “Copa da Integração”, na qual participam aproximadamente 80 equipes, que no ato da inscrição, doam alimentos não perecíveis destinados a comunidades carentes.E por fim temos a Organização Não Governamental de Educação e Esporte Asa Branca (ONGECEAB). Dirigida por Júlio César, a entidade promove o evento conhecido como “Taça Triângulo”, cujo intuito é promover o esporte amador.
Professor Loló também tem experiência no campo da arbitragem amadora e profissional. Já “apitou” jogos entre o antigo Portuguesa (atual Crato) e o Bangu, time carioca; um jogo amistoso do Icasa e Fortaleza; a nível nacional foi também bandeirinha (hoje chamado de assistente) do jogo do Icasa e Vasco no Romeirão, e Flamengo e Portuguesa no Mirandão, em Crato. Em termo da arbitragem local dos jogos amadores, Loló assim se manifesta: “Dou apoio a AJAF e a LDJ. Coordeno a arbitragem da região. Eu fui árbitro de 1996 a 2004. De 2004 pra cá, eu faço parte da Comissão de Arbitragem ligada a Federação Cearense de Futebol. Eu observo algumas arbitragens a nível profissional, faço relatórios de cada jogo que aconteceu, digo os erros e acertos dos árbitros. Pela AJUAF, eu faço uma avaliação também em termos de esporte amador. Nos reunimos todas as sextas, as 05:30 da manhã no estádio do Romeirão, onde fazemos todo o questionamento da semana da arbitragem”.
Um das tantas dificuldades que os times de futebol amador enfrentam é a questão referente aos campos. “A maioria dos campos são de pessoas particulares e os donos do terreno estão começando a construir edifícios e apartamentos, daí os campos estão indo de água abaixo”, relata professor Loló

Mas em quesito de unanimidade, a dificuldade mais gritantes de quem se habilita a adentrar no universo do futebol amador, é a financeira. “Quem banca a maioria dos times são os donos de time que as vezes passa a semana toda juntando aquele dinheiro pra quando chegar o sábado e o domingo, eles investirem em suas equipes”, diz Loló, enfatizando que o incentivo não deve ser só o dinheiro e sim, na doação de uniformes e materiais esportivos. Alana Mara completa afirmando que “falta políticas públicas para assegurar que esses times tenham uma vida mais longa, falta verba, e falta por em prática a lei de incentivo ao esporte amador”.

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