Gestos

6/12/2014 06:44:00 AM

Nos pequenos gestos que fazemos, nos sentimos de uma certa forma livres. O peso do mundo, os problemas, as reclamações, os rancores, a dor, tudo isso desaparece naquele curto espaço de tempo, onde a única coisa que apreciamos é a liberdade.

Um exemplo que eu poso dar e que aconteceu há pouco tempo atrás, me marcou profundamente. Reclamamos da merda do mundo de hoje, não sei quantas mil vezes,mas não nos conscientizamos que essa merda toda é moldada por nossas articulosas mãos, que com maestria pinta de preto e branco as cores vibrantes da vida.
Um dia, eu ia super agitada para a Universidade e me esbarrei com uma senhora que tinha a idade de ser minha avó. Ela estava estampando em seu rosto, uma alegria sem fim, ao mesmo tempo que sentia o gosto fresquinho de um pão carioquinha lhe satisfazer a fome momentânea.

Uma dupla de garotas passava também naquele exato momento e foram atingidas por uma onda de ternura que emanava da alegria singela daquela senhora. Digo ternura e não pena. Pena eu tenho de mim, por achar que o mundo sempre conspira contra mim, quando eu tenho tudo nas mãos, mas acho mais fácil continuar me lamentando e achando que não tenho nada.
A dupla de garotas dividia um refrigerante na garrafa, e ao ver a alegria daquela senhora mastigando o seu pãozinho, ofereceram o refresco. Aquele gesto deixou a senhora mais feliz ainda, porque agora teria um líquido para auxiliar em sua refeição, e quem sabe, aliviar sua sede, nem que fosse por um momento apenas. 

Eu permaneci olhando, ainda com o coração partido e apertado, e uma vontade imensa de chorar se apossou de meu corpo. Eu pensei que aquela senhora desprezada pela vida, pela família, sem identidade, sem direito a nada, sem condições dignas de sobrevivência, orando e mendigando pelo o seu pão de cada dia, poderia ser minha avó, minha mãe e até eu mesma!

Naquele dia, eu só tinha o dinheiro da janta. Estava na maior falta de grana mesmo! Eu não pensei duas vezes... Céus! O que seria uma noite sem jantar, quando sabe lá Deus quantas manhãs, tardes e noites essa senhora passava sem seu alimento diário, e mesmo assim, resistia bravamente a uma vida que lhe negava tudo?
Me aproximei dela e entreguei o dinheiro, e ao mesmo tempo, disse:

"Tá ai um dinheirinho pra senhora ir na padaria e comprar mais pãezinhos".

Eu sai me sentindo a pessoa mais fodasticamente feliz da face da Terra. Não vejo o ato que eu fiz como uma esmola. Vejo isso como uma ajuda mútua, porque naquela situação, aquela senhora me ajudou a refletir, em sua condição humilde, sobre uma porrada de coisas da minha vida, em poucos minutos de contato.

Acredito que, se possuirmos uma sensibilidade diária e lutarmos para mudar, pelo menos, a realidade de nosso bairro, tenho certeza que aos poucos podemos construir um mundo realmente melhor.
Desabafo feito em lágrimas.

Aprendizado para toda a vida.

Assinado: Raquel Alves

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