A alma do Espelho

8/25/2015 08:02:00 AM

*texto que fiz quando eu cursei Letras

Fabíola Santos Alencar[1]
Francisca Raquel Queiroz Alves Rocha

 Resultado de imagem para espelho
                 O presente paper tem como finalidade apresentar uma análise comparativa dos contos “O Espelho” de Machado de Assis e “O Espelho” de Guimarães Rosa, destacando as semelhanças e diferenças entre ambos, como também a questão da intertextualidade (relação entre dois textos caracterizada por um citar o outro), influência (resultado de uma relação de contato–fonte), originalidade (aquilo que é original, que traz ou constitui inovação, novidade) assuntos esses discutidos na disciplina de Cultura Literária.

                Sabe-se que Machado de Assis pertenceu ao Realismo e Guimarães Rosa ao período do Pós–Modernismo. Apesar de seguirem uma linha de pensamento distinto, existe uma característica em comum que os unem: uma das temáticas de suas obras é a questão da análise psicológica e social, ou seja, apresentar e discutir os problemas que inquietam alma humana.

               O conto “O espelho” de Machado de Assis, narra a história de Jacobina, um homem de aparentemente 45 anos que discute à respeito de assuntos transcendentais e por meio de uma experiência vivenciada em sua juventude, prova aos seus companheiros a existência de não só uma, mais de duas almas: a interior e a exterior e de como elas podem mudar de estado e natureza. No conto “O espelho” de Guimarães Rosa, um homem através de seus questionamentos, discute sobre os espelhos e seus tipos: os bons e os maus e do sue caráter de honestidade ou fidedignidade da imagem que ele reflete, além das características intrínsecas em nossa alam que a forma reflexível no espelho e as conseqüências da renegação dessas características.

             Percebe-se as que as semelhanças entre ambos os contos se principia pelo título das obras: O espelho, que carrega um significado e simbologia que ultrapassa o conceito da física e vai de encontro com o transcendental, assunto este explorado pelos contos. O espelho é o objeto pelo qual, os protagonistas buscam encontrar sua identidade, sua personalidade, sua alma, em busca da imagem que revele sua essência ou apenas uma imagem que alimente seu ego. Outra notável semelhança diz respeito a história e aos personagens-protagonistas (autodiegético).

                 No processo em que os protagonistas buscam encontrar essa imagem tão almejada, ao olharem para o espelho, eles vêem-se esfumaçados, desfigurados e depois de um certo tempo começam a enxergar o resultado final deste processo.

                   Em se tratando das diferenças, estas caracterizam o grau de originalidade existente na obra de Guimarães Rosa. No conto de Machado de Assis, o seu sub-título “Esboço de uma teoria sobre a alma humana” sugere que trata-se de uma verdade  científica comprovada por uma experiência pessoal, na qual o protagonista tem tanta certeza desta verdade que não admite réplica.

                O narrador do conto de Guimarães Rosa também relata uma experiência própria, “experiência, a que me induziram”. Existem muitas dúvidas e questionamentos ao longo do conto, como também questões referentes ao antagonismo existente entre a realidade e a imagem do que somos, a verdade e a ilusão que criamos; ele busca explicações que comprovem o que ele diz.

                 O processo em que se busca alcançar ou descobrir a alma exterior, além do próprio significado que a descreve, também diferem nos contos. Desde o início, a alma exterior de Jacobina era voltada para o social. Quando jovem, sua alma exterior era o homem, o adolescente que vivia intensamente. Ao ser nomeado alferes, este passou a ser sua alma exterior, que se alimentava dos elogios recebidos de todos, principalmente de sua tia Marcolina. Na solidão profunda e sem ninguém para “encher o gabo”, a sua alma exterior vai se reduzindo e só o sonho lhe aliviava, pois nele reinava a alma interior. É interessante perceber a dependência da alma interior. Mesmo eliminando a alma exterior (o alferes), os seus sonhos eram movidos pela alma exterior.

“Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes... e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se como o sono a consciência do meu ser novo e único– porque  a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar....”
         
                     Houve um dia, ao olhar para o espelho, que ele não pode ver a sua imagem nele refletida e ficou bastante receoso. Por mais que olhasse, não conseguia enxergar nitidamente aquela imagem que tanto procurava, até que lembrou-se de vestir a farda de alferes e com isso, o espelho produziu aquilo que ele queria ver: a sua alma exterior ausente. Machado de Assis somente enfatiza a busca da alma exterior e podemos interpretar como uma crítica a sociedade que só importava com a aparência e os status sociais e esquecia dos valores humanos que constituem a alma interior.

              Em Guimarães Rosa, o protagonista é mais “espiritualista” no caminho percorrido para chegar a alma interior e exterior. Um dia ao se deparar com sua alma exterior que lhe causou medo e ódio, decidiu procurar o que estava atrás da “máscara” que foi refletida no espelho. Ele começou a se desfazer dos elementos que constituíam essa alma exterior, para que assim fosse revelado a sua verdadeira identidade: caráter animal (onça), elementos hereditários (parecenças com os pais e avós), paixões (sentimentos).

                   Ao se deparar com o espelho, não conseguiu enxergar nem os próprios olhos. Tudo resumia-se ao vazio interior. Este processo de anular elementos que caracterizam a máscara exterior acaba “desestruturando” o personagem, que reflete o vazio que restou. Depois de muitos meses sem enfrentar o espelho, do vazio que restou, se formou o rosto de um menino, nascido das máscaras externas desfeitas. O rosto de menino era a sua alma interior.


“Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto quase delineado, apenas ­–mal emergido, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal... E era não mais que: rostinho de menino....”
 


                     Enquanto o personagem de Guimarães Rosa queria se desfazer de sua máscara exterior, o Jacobina precisava dessa máscara para sobreviver, já que a opinião dos outros era o mais importante.

                 A intertextualidade está presente no conto de Machado de Assis, quando Jacobina no decorrer de sua narrativa cita a fala de Shylock, personagem da obra “O mercador de Veneza” de William Shakespeare. Shylock era um judeu rico e agiota que odiava os cristãos e uma pessoa muito “apegada” ao dinheiro. Outro momento em que nota-se a intertextualidade é ao recordar de um estribilho de uma poesia do escritor americano Henry Wadsworth Longfellow, “Never, for ever!– For ever, never!”, intiutlada “The old clock on the stairs”. Percebe-se que essas intertextualidades condizem aos acontecimentos narrados, já que na primeira vem reforçar a idéia do que é a alma exterior (como foi dito a alma exterior de Jacobina estava ligado as possíveis conquistas provenientes de seu novo cargo: alferes) e na segunda demonstra a relação que o personagem tinha com o tempo e com o “tic-tac” do relógio, que parecia ter congelado o tempo e estar prolongando aquele sofrimento devido a ausência ou perda de sua alma exterior.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


NITRINI, Sandra. Literatura Comparada. Edusp, São Paulo, 2010.

ASSIS, Machado de. O espelho– Contos escolhidos de Machado de Assis.

ROSA, Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio. São Paulo: Ed. Nova Fronteira, 2004.
http:www.anpoll.org.br/revista/index.php/rev/article/view/44/40
http: pepsic.bvsalud.org/pdf/ide/v31n47/v31n47a15.pdf




[1]Alunas da Universidade Regional do Cariri–URCA. Disciplina: Cultura Literária

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários