#Resenha Da arte de persuadir- Blaise Pascal

7/21/2017 11:38:00 AM

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 Para Pascal há duas potências que funcionam como portais de acesso à alma por meio das opiniões: o entendimento e a vontade.
A mais natural é a do entendimento, pois nunca se deveria consentir senão nas verdades demonstradas, mas a mais usual, embora contra a natureza, é a da vontade, pois todos os homens são quase sempre levados a crer não pela prova, mas pelo agrado (2006, p. 33).

Pascal ainda acrescenta
Não falo aqui das verdades divinas, que eu não teria coragem de incluí-las na arte de persuadir, pois elas estão infinitamente acima da natureza: somente Deus pode colocá-las na alma e sob a forma que lhe agradar. Sei que ele quis que elas entrassem do coração para o espírito e não do espírito para o coração, para humilhar essa soberba potência do raciocínio que pretende ser juiz das coisas que a vontade escolhe e para curar essa vontade enferma que se corrompeu totalmente por seus apegos imundos (PASCAL, 2006, p. 33).

O filósofo e matemático continua seu pensamento dizendo que o homem corrompeu a sua crença ao acreditar em algo referente ao seu agrado. “Disto provém o afastamento em que ficamos de consentir verdades da religião cristã, totalmente oposta aos nossos prazeres” (PASCAL, 2006, p. 34).

Há verdades que estão em dois patamares: em um nível de proximidade e de distanciamento. “[...] Falo [...] senão das verdades a nosso alcance e delas que afirmo que o espírito e o coração são como as portas por onde são admitidas na alma” (PASCAL, 2006, p. 34).

Espírito e vontade são potências na visão de Pascal (2006), regidas por ações e fundamentos. Sobre a primeira, este espírito possui sua verdade natural conhecida por cada um. Em razão do segundo, a vontade é inerente também de cada ser humano, e corresponde a uma aspiração. Este desejo é poderoso, e se abate sobre nós, instigando-nos a não medir esforços para alcançá-los.

As “qualidades das coisas com que devemos persuadir, são bem diversas” (PASCAL, 2006, p. 34). Vejamos alguns apontamentos listados: podem ser verdades comungadas em forma confessada; podem agregar-se aos objetos que desejamos; vontades do coração ligadas às verdades confessadas; por mais que se conheça a verdade, ela vai por um caminho contrário ao prazer, aquilo que mais lhe agrada (PASCAL, 2006). A vontade ou o próprio homem em si, pode ter um destino duvidoso. Esta vontade pode ser corrompida ao longo da trajetória deste homem, e dos fatores ao seu redor.

[...] Essa alma imperiosa, que se vangloria de só agir pela razão, segue, por uma escolha vergonhosa e temerária, o que uma vontade corrompida deseja, por maior que seja a resistência que o espírito muito esclarecido possa opor a ela. E então que ocorre uma oscilação duvidosa entre a verdade e voluptuosidade e que o conhecimento de uma e o sentimento de outra travam um combate cujo êxito é bem incerto, porquanto seria necessário, para julgar a respeito, conhecer tudo o que se possa no mais íntimo do homem, que o próprio homem quase nunca conheceu (PASCAL, 2006, p. 35).

Levando em consideração o exposto, esta arte de persuadir, ao mesmo tempo que busca atrair expectadores com promessas em suas falas que dizem respeito a satisfação de seus ouvintes, procura também induzi-los, já que o homem “se governa mais pelos caprichos que pela razão!” (PASCAL, 2006, p. 35).
Essa arte, que designo a arte de persuadir e o que propriamente não é senão a condução das provas metódicas perfeitas, consiste em três patês essenciais: definir os termos de que se deve servir-se por definições claras; propor princípios ou axiomas evidentes para provar a coisa de que se trata; e substituir sempre mentalmente na demonstração as definições em lugar dos definidos (PASCAL, 2006, p. 37).

Vemos que há um modelo que segue um princípio de racionalidade. Pretende-se provar o que supostamente é claro, por meio de comprovações, levando em consideração a definição, os axiomas e demonstrações. Com base nas seguintes regras, Pascal mostra o essencial do “método inteiro das provas geométricas da arte de persuadir” (2006, p. 37).

Regras para as definições:
1.      Não tentar definir nenhuma das coisas de tal modo conhecidas por si, que não se tenha termos mais claros para explicá-las;
2.      Não admitir nenhum dos termos um pouco obscuros ou equívocos, sem definição;
3.      Não empregar na definição termos senão palavras perfeitamente já conhecidas ou já explicadas.
Regras para os axiomas:
1.      Não admitir nenhum dos princípios necessários sem ter perguntado se todos concordam, por mais claro e evidente que possa ser;
2.      Não perguntar em axiomas senão coisas perfeitamente evidentes por si próprias.
Regras para as demonstrações:
1.      Não tentar demonstrar nenhuma das coisas que são de tal modo evidentes por si que não se tenha nada de mais claro para prová-las;
2.      Provar todas as proposições um pouco obscuras e só empregar para a sua prova axiomas muito evidentes ou proposições já acatadas ou demonstradas;
3.      Substituir sempre mentalmente as definições em lugar dos definidos, para não se enganar pelo equívoco dos termos que as definições restringiram (PASCAL, 2006, p. 37 e 38).

Recapitulando: as regras de definições tem que ser objetivas à proposta de esclarecê-las; termos sem véus, sem mistérios, que sejam bastante nítidos na questão do entendimento; palavras que já possuem conceitos de conhecimento comum. Nas regras sobre axiomas, devem persistir em uma relação de nexo com os princípios; as perguntas tem que dizer respeito ao que o axioma realmente é. Por fim, as regras de demonstração devem não revelar coisas óbvias, que por si só já se sobressaem e que todos podem chegar a essa denominação comum sobre a demonstração; atestar aquelas proposições que realmente estão envoltas de dúvidas, e estas sim, são conhecimentos que devem preocupar-se a prová-los; a reposição mental é o próximo passo: esta vai da definição ao definido, em caráter de transferência.
Essas são as cinco regras que formam tudo o que há de necessário para tornar as provas convincentes, imutáveis e, para dizer tudo, geométricas [...] Esse método não tem nada de novo [...] É bem fácil de aprender, sem que seja necessário para isso estudar os elementos da geometria [...] porquanto seu uso é reduzido quase unicamente às matérias geométricas (PASCAL, 2006, p. 39).



Quem possui o esclarecimento dessas regras, para Pascal (2006), pode perceber a diferenciação entre o que elas revelam, e o que está sendo dito em suas postulações, que se diferem da proposta que alguns lógicos (aos quais, parte da crítica de Pascal é dirigida) afirmam como verdades. “Aqueles que possuem o espírito do discernimento sabem quanta diferença há entre duas palavras semelhantes, de acordo com os locais e as circunstâncias que as acompanham” (PASCAL, 2006, p. 40).  Acrescenta-se ainda que, ao comparar lógicos e geômetras

O método de não errar é procurado por todos. Os lógicos fazem profissão de chegar a isso, os geômetras são os únicos que chegam e, fora de sua ciência e daquilo que a imita, não há verdadeiras demonstrações. E toda a arte está nela encerrada nos únicos preceitos que acabamos de descrever: sozinhos bastam, sozinhos provam. Todas as regras são inúteis ou prejudiciais (PASCAL, 2006, p. 42).



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